Volta e meia Hollywood dá de frente com “ondas”. E entre remakes, musicais, animações e filmes bíblicos, o final dos anos 90 foi a vez de um grupo de mexicanos tomar o cinema. Em uma trinca onde duas pontas eram formadas por Guillermo Del Toro e Alfonso Cuaron, foi a terceira que talvez hoje, mais de uma década depois, acabe sendo o mais prestigiado deles: Alejandro Gonzáles Iñárritu.

Iñárritu nasceu na própria cidade do México em 15 de agosto de 1963 e antes de surgir para o cinema mundial com o visceral e à flora da pele Amores Brutos teve muita história ali por baixo da fronteira dos Estados Unidos. Na verdade não só por ali, já que entre os 17 e 19 anos tirou para sí um período sabático onde viajou pela Europa e África, e que, para o próprio, foi um dos momentos que ditaram seu rumo.

O então jovem mexicano voltou para a terra natal, se tornou um radialista de sucesso e, na mesma esteira, ao chegar a diretoria da WFM fez com que ela se tornasse a rádio mais ouvida do país. E foi no final desse período que Iñárritu teve seu primeiro contato com a sétima arte, ao passar dois anos (entre 1987 e 89) compondo algumas trilhas para filmes menores do México.

Amores Brutos

Já os anos 90 vieram como o embrião do diretor que veio a se tornar. Primeiro ao ir aos Estados Unidos estudar cinema, depois por voltar ao México e fundar a Z Films com seu parceiro Raul Olvera. Em pouco tempo a Z Films se tornou umas das maiores produtoras do país, o que o levou a um outro projeto: uma série de curtas que mergulhariam nas contradições e sujeira daquele México que a maioria ignorava. De início, 11 curtas em parceria com o roteirista Guillermo Arriaga, três anos de trabalho e 36 rascunhos depois, um trio de histórias que se entrelaçavam e formaram o celebrado Amores Brutos.

O filme chegou aos cinemas em 2000, e de cara Iñarritu saiu de Cannes com o Grande Prêmio da Crítica. Na sequencia Amores Brutos acabou ainda ficando com uma vaga no Oscar. O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2001 acabou ficando com Ang Lee e seu épico O Tigre e o Dragão, mas definitivamente Iñarritu estava com as portas abertas em Hollywood.

Já em sua primeira oportunidade, voltou a parceria com Arriaga e embarcaram no poderoso 21 Gramas. A estrutura continuava entrelaçando histórias, personagens, tempos e tramas, assim com continuava com a coragem narrativa de Amores Brutos. Sem se “vender”, Iñárritu acabou então fazendo um dos filmes mais comentados e celebrados de 2003. Bancado pelo Universal e com um elenco que contava com Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts, viu o Oscar indicar apenas os dois últimos atores. Viu também os irregulares Seabiscuit e Mestres dos Mares serem indicados a Melhor Filme e (talvez) ficarem com sua vaga.

Babel

Talvez a Academia ainda não estivesse preparada para Iñárritu, o que talvez não tenha sido suficiente para fugir de sua obra mais ambiciosa: Babel. Filmado em quatro países (Marrocos, Japão, Estados Unidos e México) e estrelado por Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael Garcia Bernal (que surgiu, justamente, em Amores Brutos) e um elenco de atores novatos e amadores, Babel era um mosaico sobre a relação entre pessoas, sejam próximas, sejam a quilômetros de distância. O filme foi um sucesso enorme de crítica e público e enfim Iñarritu pode ser celebrado por Hollywood.

De cara o diretor se tornou o primeiro mexicano a ser indicado aos Prêmios do Sindicato de Diretores de Hollywood (DGA), ainda levou para o México o Globo de Ouro de Melhor Filme (Drama), assim como viu o filme chegar ao Oscar com sete indicações. Levou apenas o prêmio de Melhor Trilha Sonora (para Gustavo Santaollalla), e, muito provavelmente, só não levou mais nada pois viu o incrível Os Infiltrados, de Martin Scorsese, ficar com a maiors dos Oscars.

Babel ainda marcou o fim da parceria de Iñarritu com seu parceiro Guillermo Arriaga. O roteirista resolvou então partir para uma carreira de diretor e emulou boa parte do estilo do antigo parceiro em Vidas Que Se Cruzam, enquanto Iñárritu resolveu partir para outros ares e ir filmar Biutiful na Espanha.

Biultiful

E quando se diz “partir para outros ares” não é uma força de expressão, já que Biultiful, ainda que tenha a mesma sensibilidade e apuro visual de seus outros filmes, assim como mais uma vez trata da morte como um revelador da vida (como em Amores Brutos e 21 Gramas), foge completamente da estrutura de tramas paralelas e se descobre um novo e mais capaz ainda diretor. Um que consegue se reinventar enquanto mantém suas raízes intactas.

Biutiful demorou dois anos para ser lançado em 2010, mas o esmero lhe rendeu além de mais uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, um BAFTA na mesma categoria. Nos Oscar, o protagonista Javier Barden ainda ficou com uma mais que merecida indicação a Melhor Ator.

O futuro de Iñarritu passa tanto por seu mais recente Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), indicado a nove Oscars, quanto por seu próximo projeto marcado para estrear em 2016, The Revenant, com Leonardo Di Caprio e Tom Hardy.

Cinematografia Selecionada:

Amores Brutos (2000)
21 Gramas (2003)
Babel (2006)
Biutiful (2010)
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

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