Afterlife | Protagonista salva o filme um pouco leve demais

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Afterlife, filme do diretor/roteirista estreante Willem Bosch, é uma experiência leve, mas não divertida, pois usa sua leveza apenas para abordar temas delicados como morte de parentes e suicídio.

Sua protagonista é Sam, uma adolescente de 16 anos, e para concebermos como uma história com adolescente e com esses temas delicados pode ser levada adiante sem se tornar um drama pesado passamos a entender por que a abordagem de Bosch é nos deixar à vontade desde o começo com a questão da morte, para logo depois explorar algo além da vida.

Para isso ele utiliza uma narração em off que lembra de maneira muito auto-contida a introdução de filmes como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, onde a música lúdica e os cortes rápidos em sucessão, do nascimento ao crescimento da pequena Sam até a idade dos 14 anos nos faz imaginar que esta é uma aventura mais próxima do romance do que do drama. Porém, nessa idade sua mãe vem a falecer, e então percebemos que o tom do filme é usado para não nos fazer pensar duramente sobre isso, além de que pelo próprio título do filme sabemos que haverá algum tipo de experiência após a morte.

E no além-vida surge uma possibilidade tão otimista que acho difícil que alguém tenha criado algo mais “cor-de-rosa” do que isso: depois de você morrer será conduzido por um anjo para duas opções possíveis de continuar sua existência: em uma delas você reencarna e tem a chance de viver novas aventuras, e na outra você descansa pela eternidade na companhia dos parentes que já se foram (o que algumas pessoas chamariam de paraíso, mas eu chamo de inferno!).

Baseado nessa premissa, temos algumas reviravoltas iniciais que culminam em Sam ganhando a chance de salvar sua mãe da morte (Sim, parece um filme que você já viu, mas continue nele!). Este trata as coisas de uma forma diferente. Há um quê de espiritualidade e religiosidade que não cai na doutrinação, mas se mantém presente, como valores invisíveis que estão lá, e só começamos a nos dar conta de qual é a verdadeira história do filme conforme aprendemos a buscar as pistas certas. São pedaços de pão jogados na trilha que irão ensinar o espectador a verbalizar as entrelinhas, que nunca são ditas.

O trabalho de Willem Bosch no roteiro é orgânico em descrever como funciona esse mundo através de sua história, mas na direção ele corre o risco de estar sendo sutil demais para o espectador médio. Aqui cabe a observação de que não é fácil inovar na abordagem de uma história comum sem dar um salto de fé para que o espectador capte a mensagem por uma espécie de telepatia audiovisual. E se estou sendo por demais vago é porque eu desejo que você tente trilhar este caminho que trilhei. Para facilitar um pouco, lembre-se de olhar para o anjo. Ele sempre estará por perto. O que isso significa? Isso é você que terá que dizer, provavelmente a si mesmo.

É surpreendente como a atuação da estreante Sanaa Giwa consegue abraçar o protagonismo sem chamar atenção para si mesma. Giwa constrói uma Sam que atingiu a adolescência com certa maturidade, mas que ainda precisa absorver o mundo à sua volta para conseguir dar seu passo final em torno de uma vida com significado. Sua paixão inicial foi o desenho, algo cortado repentinamente de seus sonhos com a morte da mãe. Mas Sam continua a observar o mundo com sua maneira peculiar, e Giwa é responsável por nos entregar esse olhar misto entre um quase conhecimento da vida aliado à saudável curiosidade de uma jovem que ainda não se rendeu.

Afterlife possui uma ótima premissa em mesclar questões existencialistas na mente de uma garota órfã e nos fazer refletir sobre nossa própria existência, mas sua leveza e sutileza exageradas diminuem a força de sua mensagem. Felizmente a participação energizada de Sanaa Giwa no papel de protagonista mantém um equilíbrio entre leveza e realidade, que aliado ao poder fantástico na mente do espectador consegue garantir uma experiência no mínimo intrigante. É como sair do cinema procurando por um segundo pensamento, e não são todos os filmes que colocam a reflexão acima do drama fácil.


“Hiernamaals” (Hol, 2019), escrito e dirigido por Willem Bosch, com Sanaa Giwa, Romana Vrede, Ria Eimers, Jan-Paul Buijs e Gijs Scholten van Aschat.



Trailer – Afterlife

Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *