Adeus à Noite | Filme com Deneuve é choque de gerações


Catherine Deneuve está fazendo cada vez mais papéis em que sua idade e sua persona inspiram sabedoria, mas em Adeus à Noite essa sabedoria é impotente e deslocada.

Isso porque a história é sobre um fenômeno recente em nossa geração, e por isso está totalmente deslocada de sua realidade. Tem início com jovens entediados com a vida de primeiro mundo e a esperança de algo mais significativo na promessa fácil do Estado islâmico e sua além-vida pela religião. Lavagem cerebral, basicamente.

Não é muito difícil fazer isso com as mentes fracas e influenciáveis de hoje em dia. Sem o apoio de uma família funcional perdem-se as bases de uma sociedade saudável. Deneuve faz aqui Muriel, a avó de Alex, um rapaz que é órfão de mãe e cujo pai o abandonou para criar outra família. Sua namorada, Lila, também é órfã, e foi adotada por um motivo egoísta: servir de companhia ao seu responsável na velhice, o sócio de Muriel em seu negócio para turistas. Note que é nesse corte entre as gerações, dos “avós” direto para os “netos”, que se estabelece o drama no filme.

Alex quase não visita a avó, mas dessa vez, vários meses depois, ele chega muçulmano, fazendo sua reza diária e se mantendo distante deste mundo. A lógica da narrativa parte da observação de Muriel do comportamento desses jovens, que acreditam no paraíso pós-morte com todas as forças através da abnegação, e portanto o aqui e agora não valem de nada. Isso soa estranho também para a maioria de nós, espectadores ocidentais não muito religiosos ou com uma religião mais light.

Esse comportamento, por outro lado, é criticado no filme de uma maneira muito engajada, pois coloca a tecnologia como o verdadeiro “recrutador” desses jovens. Eles não vão à mesquita como um muçulmano tradicional, mas aprendem sobre a religião na internet. O grupo ao qual pertencem não está fisicamente próximo, mas está interconectado a todo momento pelos seus celulares. E se não há sinal de antena é o fim do mundo para eles.

O filme nos introduz essa mudança entre as gerações começando com um eclipse. Muriel não liga de observá-lo a olho nu, correndo o risco de ficar com problemas na visão. Já Lila assistiu ao evento pela televisão. Enquanto para os mais velhos o dia se torna noite em um eclipse, para os jovens não existe noite, o período de repouso. A internet conecta a todos o tempo todo, 24 horas.

A direção hábil de Amer Alwan, em sua primeira ficção para o cinema, também nos mostra esse contraste entre o mundo perfeito em que esses jovens vivem e o quanto tudo isso é ignorado por eles. Eles estão cercados de lindas montanhas, um vinhedo e flores que brotam das cerejeiras. É primavera, os primeiros dias, e o filme os vai contanto um a um. Alex e Lila podem cavalgar nesse paraíso em Terra, mas suas mentes estão tomadas pelo Alcorão.

Há um momento muito belo do filme em que o contraste entre vida e morte se torna completo. Pessoas reunidas comemorando após uma corrida de cavalos, e os jovens influenciados pelo mundo árabe reunidos para uma celebração religiosa. O primeiro grupo celebra a vida com música e dança. É uma ode à própria felicidade. Poderia estar tocando a “Nona” de Beethoven, mas é um momento intenso e leve ao mesmo tempo, então toca uma cantora pop, Sya. Já no segundo grupo acompanhamos sermões sobre porque beber vinho e praticar esportes é um pecado mortal, em que todos estão cobertos com as mesmas vestes sóbrias e há um ar de reverência. Ou seja, praticamente um enterro. Para mim a mensagem é clara: esta geração está morta por dentro.

Conseguindo equilibrar bem essa dualidade de visões sobre a vida no mesmo lugar, o terceiro ato se perde entre acompanhar o realismo do recrutamento de jovens para o Islã e o papel de uma avó ao saber que irá perder seu neto para sempre. Deneuve é desperdiçada na meia-hora final porque esta, como já vimos no começo, não é sua história. E não é de ninguém, pois ela quer ser documental, mas até então era uma convincente ficção.

De qualquer forma, Adeus à Noite dá o seu recado sobre a questão, goste você ou não. Vira um filme educativo, até, mas poderia voar muito mais além.


“L’adieu à la nuit” (Fra/ Ale, 2019), escrito por Amer Alwan e Léa Mysius, dirigido por André Téchiné, com Catherine Deneuve, Kacey Mottet Klein e Oulaya Amamra.


Trailer do Filme – Adeus à Noite

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