Acrimônia | Sob medida para o Supercine

Acrimônia Filme

Quando ouvimos que “Sempre que uma mulher negra fica com raiva, ela é vista como um estereótipo” criamos a esperança de um filme relevante. De início, Acrimônia até parece mesmo que vai ter esse algo relevante a dizer sobre a fúria feminina, especialmente relacionada a uma protagonista negra. Entretanto, Tyler Perry logo escancara que esta é mais uma daquelas produções feitas sob medida para o Supercine e que acompanha uma mulher completamente louca e sua paixão descontrolada por um homem patético.

Melinda (Ajiona Alexus) sempre teve uma personalidade explosiva e agressiva que ela se esforçava para manter sob controle. Até que, na faculdade, ela conhece Robert (Antonio Madison), um jovem charmoso que logo começa a mostrar seu lado manipulador e cretino – que inclui pedir com frequência para que Melinda gaste com ele os milhares de dólares que ganhou após a morte da mãe, seja para comprar um carro, para pagar os semestres restantes da faculdade depois que Robert perde a bolsa de estudos ou para investir no projeto de vida dele, uma bateria capaz de fornecer energia barata e sustentável.

Mas as incertezas e inseguranças do primeiro amor são um prato cheio para que a raiva da garota exploda de vez, especialmente quando ela descobre que o namorado está tendo um caso com outra estudante, Diana (Shavon Kirksey). Entretanto, Robert sempre consegue convencer Melinda a dar uma segunda chance a ele – e a continuar dedicando ao amado todo o seu dinheiro.

Um casamento e quase duas décadas depois, eles estão endividados e infelizes, enquanto ele (vivido agora por Lyriq Bent) não para em emprego nenhum e não larga o sonho de vender seu projeto para uma companhia local e ela (na vida adulta, interpretada por Taraji P. Henson) trabalha como assistente em um escritório para manter a casa que herdou de sua mãe. Mas é quando Diana (na pele de Crystle Stewart) ressurge na vida de Robert que Melinda perde o controle de vez. Quando ele finalmente consegue atrair a atenção da empresa dos seus sonhos e vender a ideia da bateria, ela pede o divórcio e, então, vê Robert proporcionando a Diana a vida que ele sempre prometeu, mas nunca entregou, para ela mesma. Sentindo-se injustiçada e abusada, ela começa a fazer de tudo para acabar com a felicidade – e a paz – do novo casal, o que toma proporções cada vez mais caóticas.

O sucesso profissional e a súbita riqueza de Robert não alavancam nenhuma mudança no personagem, que continua o mesmo cara que tanto manipulou e humilhou Melinda. Entretanto, por algum motivo, a bela e bem-sucedida Diana decide entregar-se a ele, mesmo sabendo que ele já havia se mostrado um cafajeste na faculdade, quando ficou com ela escondendo que era comprometido. Só que, especialmente no terceiro ato, o diretor e roteirista Tyler Perry ignora completamente o fato de que Robert, de maneira curta e grossa, não presta.

É claro que nada do que ele faz justifica as atitudes de Melinda, especialmente em relação a Diana, mas deixar que ela leve toda a culpa pelo fracasso do relacionamento representa uma grande omissão, além de fazer com que a personagem de Diana estabeleça-se, não intencionalmente, como excessivamente ingênua.

Acrimônia é narrado por Melinda por meio do desabafo que ela faz para uma terapeuta depois que um juiz obriga-a a fazer um tratamento para controlar sua raiva. Nesse testemunho, a protagonista diz que sua fúria a assola da mesma forma que a fome faz, sendo algo natural e que faz parte de sua essência. Entretanto, o que temos na realidade é apenas a história de uma mulher que enlouquece por causa de um homem, por mais que o filme tente estabelecer que a situação é mais complexa.

Acrimônia Crítica

Não ajuda o fato de que Melinda permanece passiva pela maior parte da trama, com ocasionais arroubos de ação, pois isso ainda faz com que a produção torne-se arrastada e com que o ritmo do terceiro ato acelere de maneira descontrolada. A trilha sonora dramática que insiste em pontuar exatamente a emoção que você deve sentir a cada momento (já que a direção de Perry por si só não chega nem perto de fazer isso) também não colabora. Para piorar, já que ciúme obsessivo e sede de vingança não são motivações o bastante, Melinda ainda descobre que não pode ter filhos, o que torna o casamento com Robert ainda mais miserável – 18 anos passando num piscar de olhos porque, entre outros motivos, eles não têm fotos pela casa ilustrando o crescimento das crianças (???).

A ideia é tornar Melinda incompleta, pois o que sobra para uma mulher infértil, não é mesmo? É uma informação que não faz diferença alguma para a trama, mas que ilustra a misoginia que permeia a produção.

Se há um ponto positivo em Acrimônia, trata-se definitivamente de Taraji P. Henson, que traz uma multidimensionalidade e conflito interior para Melinda que o longa praticamente não percebe. Entregando-se a cada momento da personagem, Henson respira fundo, olha para os lados e hesita antes de expressar sua raiva, que ela realmente tenta – às vezes – manter sob controle.

Enquanto isso, Bent e Madison não possuem o charme necessário para que Robert seja um personagem carismático e envolvente, características de que ele precisava para que sua função dentro do filme se justificasse. Fechando o trio central, Stewart é prejudicada por um roteiro que parece não ter a mínima ideia sobre o que fazer com Diana – que, então, torna-se um mero recurso para a trama.

Pouco inspiradamente adotando uma fotografia cinzenta e apagada ao longo de toda a projeção, Acrimônia nasceu para ser exibido no início das madrugadas na televisão, onde Tyler Perry pode contar com a sua insônia e com o seu tédio para disfarçar a superfície rachada de seu novo filme.


“Acrimony” (EUA, 2018), escrito e dirigido por Tyler Perry, com Taraji P. Henson, Lyriq Bent, Crystle Stewart, Jazmyn Simon, Ptosha Storey, Ajiona Alexus, Antonio Madison, Shavon Kirksey, Racquel Bianca John, Bresha Webb, Angelique Valentine, Danielle Nicolet, Nelson Estevez, Kendrick Cross e Jay Hunter.


Trailer – Acrimonia

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