Ah, os filmes sul-coreanos de vingança… Em sua melhor forma, são estilosos, sangrentos e inescrupulosos em um nível que o cinema norte-americano apenas sonha em alcançar. A Vilã traz diversas qualidades que fazem jus ao gênero em que a produção se encaixa, e brilha durante suas sequências de ação. Entretanto, o constante foco em uma trama desnecessariamente complicada e melodramática faz com que o longa perca o fôlego com frequência — mas, pelo menos, quando o recupera, é capaz de deixar o espectador sem respiração.

A Vilã começa de maneira eletrizante, com um plano-sequência filmado com uma câmera subjetiva que nos coloca em primeira pessoa dentro da ação. Não sabemos muito bem o que está acontecendo, apenas que a coreografia é sensacional e que a dona dos olhos pelos quais enxergamos é “badass, conseguindo derrotar todos os seus inúmeros inimigos. Só veremos o rosto da protagonista, Sook-hee (Ok-bin Kim), quase no final desse plano, quando a câmera finalmente torna-se objetiva — o que acontece de maneira orgânica, mantendo o dinamismo que havíamos visto até então.

Depois, descobrimos que Sook-hee acaba de ser recrutada pela inteligência de seu país e que, depois se servi-los por dez anos, ela estará completamente livre. Sook-hee foi treinada desde criança para ser uma assassina profissional. Mas, ao assumir sua identidade secreta como Yeon-soo Chae, uma atriz de teatro, a agente se vê envolvida novamente com os segredos e traumas de seu passado e, então, parte para a missão de se vingar do homem que matou seu pai e seu marido. Enquanto isso, ainda precisa aprender a lidar com as aparências de uma rotina convencional.

Especialmente durante o segundo ato, o diretor Byung-gil Jung e seu parceiro no roteiro do longa, Byeong-sik Jung, chegam muito perto de deixar a bola cair. É aqui que o lado melodramático, às vezes quase uma comédia romântica, de A Vilã mostra-se mais pronunciado — o que não é um problema por si só; a estilização da obra casa muito bem com os exageros do melodrama. O que enfraquece esse aspecto do filme é a maneira confusa com que os cineastas a desenrolam, envolvendo uma série de reviravoltas e revelações que dificultam o engajamento com o que vemos na tela. Afinal, nem os personagens mostram-se interessantes o bastante para que nos importemos com seus conflitos pessoais e românticos da maneira com que eles nos são apresentados.

A Vilã Filme

Apesar de ser chamada de vilã pelo próprio título da obra que protagoniza, Sook-hee mostra-se uma vítima na maior parte do tempo — das ações dos outros, do poder exercido pela inteligência sul-coreana e, finalmente, de seu desejo quase incontrolável por vingança. Esse último aspecto é o que a torna uma personagem multifacetada e envolvente, pois impede que ela se transforme em uma figura passiva em seu próprio filme. Nesse sentido, Ok-bin Kim passeia com talento pelas diferentes facetas da personagem, fazendo com que um dos melhores toques do filme seja o sorriso esperto que cresce lentamente em seu rosto antes de ela partir para o ataque, algo que acontece no plano que antecede o “titlecard” e que, em mais uma ótima sacada da montagem, é também a última imagem do longa.

Pois o trabalho do montador Sun-mi Heo é definitivamente um dos pontos mais louváveis de A Vilã. Ao lado de Byung-gil, Sun-mi traz ritmo e dinamismo ao filme, fazendo também com que as sequências de ação — que, além de fascinantes lutas, envolvem também perseguições na estrada —, apesar de insanas, sejam compreensíveis e façam sentido. A fotografia, que faz bom uso dos tons escuros que cercam o vermelho vivo do sangue que domina o filme, também merece destaque.

Assim, A Vilã revela-se um filme ousado e, na maior parte do tempo, envolvente. As cenas de ação são imperdíveis, e é uma pena que grande parte da obra, especialmente no segundo ato, não fique à altura delas. Mesmo assim, Sook-hee e sua sede de vingança merecem ser conhecidas.


Ak-Nyeo” (Cor, 2017), escrito por Byeong-sik Jung e Byung-gil Jung, dirigido por Byung-gil Jung, com Ok-bin Kim, Ha-kyun Shin, Jun Sung, Seo-hyeong Kim, Eun-ji Jo e Ye-Ji Min.


Trailer – A Vila

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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