A Viagem | Várias séculos, apenas uma história


Depois de meterem os pés pelas mãos com os dois últimos capítulos da trilogia Matrix os irmãos Andy e Lana Wachowski, bancaram a ideia da adaptação para as telas de V de Vingança e ainda criaram o colorido e delirante Speed Racer, ambos esmagados pelas críticas e pelas baixas bilheterias, ainda que tenham qualidades inegáveis. Mas ao que parece, Neo, Morpheus e Trinity deram mesmo muito dinheiro para a dupla, já que, depois disso tudo, ainda resolveram fazer um filme independente de 100 milhões de dólares, A Viagem, demonstrando claramente a coragem da dupla.

E não é o custo que assusta, mas sim a estrutura: sem um protagonista óbvio e carregando o espectador por seis histórias espalhadas por diversos pontos de uma linha do tempo que vai desde o século XIX até o planeta desolado. Tudo simultâneo e interpretado pelo mesmo punhado de atores sob quilos de maquiagem.

Baseado em um Best Seller de David Mitchell e contando com a parceria na direção do alemão Tom Tykwer (De Corra Lola Corra e Perfume), A Viagem então realmente gigantesco, com todos esses detalhes e tramas, mas, infelizmente, carregada por um tom artificial que acaba impondo à obra uma pretensão que atravanca o resultado final.

Se por um lado A Viagem é humilde o suficiente para contar cada uma dessas histórias sem tentar deixá-las maior do que, realmente, é, a descoberta tardia de que nenhuma delas tem um final sensacional ou uma ligação cheia de surpresas com a outra é algo que vai despertar a questão: Então por que elas andam tão juntas?

A resposta é fácil, e passa pelo trabalho inspirado da montagem de Alexander Berner. Ainda que seja separado pelas décadas, cada história é resultado direto de um legado anterior e acontecem ao mesmo tempo, tudo movido por um número enorme de elipses e passagens de tempo que se cruzam, narrações que soam perfeitamente em outras épocas e alguns detalhes que enriquecem quem estiver à procura de um monte de “easter eggs”.

O legado vem do diário do personagem de Jim Sturgess, enquanto atravessa o oceano e tenta vencer uma misteriosa doença, e é lido pelo personagem de Ben Whishaw, um compositor clássico que tenta encontrar sua maior obra em 1932 enquanto se corresponde com seu amor secreto vivido por James D´arcy. E são exatamente essas cartas que acabam caindo nas mãos da jornalista vivida por Hale Berry, envolvida com uma perigosa matéria que quer desmascarar uma empresa interessada em um desastre nuclear durante o ano de 1973.

Seguindo agora pela época atual, a história dessa jornalista acaba se transformado no manuscrito de um livro que está sendo editado por Jim Broadbent, que acaba sendo internado em um asilo pelo próprio irmão e resolve escapar de lá com a ajuda de outros moradores. Já bem mais à frente, em 2144, essa mesma história se transformou em um filme e é o primeiro contato da personagem de Doona Base com o mundo, já que ele é uma clone que serve comida em um fast food, mas se torna a principal arma contra um estado opressor de Nova Seoul. Por fim, é o legado dela, quase como uma divindade, que move Tom Hanks nesse futuro desolado em busca de uma última chance de salvar a humanidade.

E por mais que não pareça, mesmo com tudo isso em mãos, A Viagem funciona como uma engrenagem azeitada. Com cada segmente bem posicionado e em nenhum momento refém de qualquer coisa a não ser de sua estrutura e da dinâmica de conviver com todos esses outros segmentos, o filme é entrelaçados por pequenos e deliciosos momentos de descobertas, fugas e enfrentamentos. Como uma história contada várias vezes com várias roupagens diferentes.

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Diante disso, o elenco vai indo e vindo em diversos e diferentes personagens, o que em âmbito geral talvez queira indicar a existência de alguma espécie de alma ou energia que se repete através dos tempos, fazendo com que grandes paixões tenham segundas chances, e assassinos frios e manipuladores se tornem heróis a cada evolução. Que é o caso dos personagens de Tom Hanks que, de aparição em aparição, vão se tornando menos e menos vilanescos, até chegar ao heroísmo. Assim com todos personagens de Hugo Weaving, sempre equilibrando a balança como um instrumento de uma força contrária (quase um vilão transcendental).

É lógico também que o mais divertido de A Viagem é, justamente, ficar refletindo sobre o destino que cada personagem segue e gerar discussões e mais discussões sobre carma e vidas passadas, mas sem em nenhum momento ver essa mesma profundidade exposta claramente no filme. Enfraquecendo-o demais diante da expectativa que esse monte de histórias cria.

A Viagem falha então ao se distanciar emocionalmente do próprio drama, optando sempre por resoluções simplistas e sequer parecendo interessado em explorar momentos de maior tensão, principalmente por se sentir obrigado a manter um ritmo entre as linhas temporais, o que interrompe demais o fluxo de algumas resoluções. E como nenhuma das histórias empolga tanto assim (a sequencia de 2012 é deliciosa, e a de 2144 só funciona pelo visual estiloso, mas só isso mesmo) o que sobra é apenas um grande mosaico montado de modo pragmático e quadrado.

Talvez, o mesmo erro que tenha jogado Matrix no ralo, se preocupando demais com uma estrutura narrativa e esquecendo-se de um objetivo simpático a todos. Uma maior identificação com seus espectadores, que até enxergam as “qualidades inegáveis” de A Viagem, mas ficam sem muita gente para torcer enquanto tentam descobrir quem é quem por baixo da maquiagem, só por diversão rasa.


Cloud Atlas(Ale/Ale/HKg/Sgp, 2012) escrito por David Mitchell (livro), Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer , dirigido por Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer , com Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James D´Arcy, Xun Zhou, David Gyasi, Susan Sarandon e Hugh Grant.


Trailer

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2 Comments

  1. Não… pelo menos eu não vi, sr. Mané. Muito obrigado pela visita ao site e por seu comentário tão educado e respeitoso. Boas Aventuras!

  2. Voceis já viram “As aventuras de meu [censurado pelo editor] grande” ?

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