2015. Ano em que Marty McFly chega por aqui vindo do passado distante de 1985 com seu – ainda hoje – futurístico DeLorean. Ano emblemático para os fãs de ficção científica (e do cinema em geral), 2015 marca também o retorno às telas do criador desta famosa e inigualável trilogia, o diretor Robert Zemeckis em seu mais novo A Travessia.

Zemeckis pode até ter alcançado um status de renomado e respeitado diretor devido a uma série de obras-primas que comandou (De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit, Forest Gump e Contato), mas a verdade é que a carreira do diretor norte-americano contém tantos altos quanto baixos. Seus trabalhos com captura de movimento nos anos 2000, por exemplo, funcionaram mais como experimentação do que propriamente como bons filmes. E mesmo entre seus projetos live action há casos que não atingiram os resultados esperados, como Revelação (2000) e A Morte lhe cai bem (1992).

É por isso que a volta ao mundo dos filmes com atores em carne e osso em 2012 com o longa O Voo foi tão bem-vinda. Trabalhando com um excelente ator como ponto focal (Denzel Washington), o filme não trazia nenhuma temática fantástica (costumeira em seu currículo) e concentrava-se em uma situação extraordinária que se passava em um mundo bastante real. O resultado é estupendo e o filme é quase unanimemente adorado. Em A Travessia, Zemeckis busca trabalhar com uma fórmula bastante similar a esta.

Aqui acompanhamos a história – real – do equilibrista francês Philippe Petit (vivido por Joseph Gordon-Levitt) que gostava de fazer suas apresentações em locais desafiadores – e completamente ilegais – como a catedral de Notre Dame na França. No longa seguimos de perto seu grande sonho, o de fazer a travessia entre as Torres Gêmeas andando por cima de um cabo sem rede de segurança, desde a concepção até a data (em 7 de agosto de 1974) em que ele apresenta seu “show” para o povo nova-iorquino.

Contando com algumas das mais belas cenas já filmadas em 3D, a sequência da travessia é algo que pede para ser visto na grande tela. Já o resto do filme…não. Enquanto no longa de 2012 contávamos com um personagem palpável e real, aqui, mesmo trabalhando novamente com um ótimo ator, Zemeckis nunca consegue criar personagens verdadeiramente interessantes. Mesmo baseando-se em uma pessoa de verdade, o Philippe de A Travessia nunca cativa, nunca nos envolve em sua vida. O grande erro de A Travessia, talvez, é ter como protagonista a travessia em si, e não o seu equilibrista.

A Travessia Crítica

Essa sensação de distanciamento é algo que já é perceptível desde as primeiras tomadas quando Zemeckis, sem qualquer explicação orgânica à narrativa, se utiliza de uma introdução em preto-e-branco. Logo em seguida ele abandona o preto-e-branco e faz uso de rebuscados movimentos de câmeras sem propósito algum, para então, novamente, abandonar os “truques” e seguir com uma narrativa visual mais centrada. O filme apresenta certos floreios aqui e ali, quase sempre bem-vindos, como as brincadeiras visuais usadas quando Philippe está planejando e calculando a distância entre as torres, além de outros pontos-chave da travessia. Mas o início do primeiro ato nunca deixa de incomodar pela forma como destoa de todo o restante da projeção.

Devido ao mau desenvolvimento dos personagens, o pouco que é feito acaba se tornando irritante, formulaico, maçante e, por vezes, caricato (em particular em relação ao personagens menos centrais à trama). Com isso a história de amor acaba dando mais a sensação de ser uma perda de tempo para o espectador (que obviamente só quer ver a travessia) do que um investimento orgânico do roteiro para sabermos mais sobre o famoso equilibrista.

Desta forma o filme acaba dependendo sobremaneira do espetáculo visual da sequência principal e do fato de que sabemos que o que presenciamos é um acontecimento real. E neste ponto o filme é incrivelmente bem-sucedido (ainda que apenas neste aspecto). A sequência é de encher os olhos por toda sua construção, não apenas visual sob o ponto de vista visual. Todo o trabalho de edição e mixagem de som é soberbo (podemos ouvir tudo que se move, desde o cabo se contorcendo ao som do vento batendo de leve em Philippe), trazendo ao mesmo tempo realismo e suspense a um momento de extrema tensão. Por sabermos que aquela situação aconteceu na vida real somos capazes de imergir ainda mais profundamente na performance insana de um homem comum com um sonho louco.

Porém há outro fato no qual o filme se escora. O de se passar nas Torres Gêmeas, alvo do atentado de 11 de Setembro de 2001. E, por mais que este fato histórico seja impossível de ser ignorado, a verdade é que o longa perde a mão por diversas vezes, fazendo reverências a algo que nada tem a ver com a trama em mãos, jogando o espectador para fora da projeção por completo. O simples fato do filme se passar lá por si só já deveria servir como homenagem e trazer um ar de tristeza e saudosismo. Não haveria necessidade alguma de que algo além fosse feito. Ora, basta um plano aberto com as torres para que sintamos o peso do que ocorreu em 2001. Mas a forma manipuladora com que certas tomadas são criadas rebaixa inevitavelmente o longa a algo que sequer parece digno da filmografia de Zemeckis.

Assim, A Travessia se mostra como um filme divertido para assistir no cinema, mas nada mais. Esquecível e nada memorável, o longa parece ter sido mais um desses projetos técnicos de Zemeckis, onde o foco era “brincar” com a nova tecnologia 3D. Bom, vendo por esse lado, o filme é muito bem-sucedido.


“The Walk” (2015), escrito por Robert Zemeckis e Christopher Browne, dirigido por Robert Zemeckis, com Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon e James Badge Dale.


Trailer – A Travessia

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