A Sombra do Pai | Sobre traumas, solidão, desejos e terror


A diretora Gabriela Amaral veio da televisão, mas é no cinema brasileiro está se revelando uma excelente contadora de histórias. E com seu segundo longa, A Sombra do Pai, (após Animal Cordial), o gênero terror em terras tupiniquins começa a ganhar uma desenvoltura própria mesmo que referencie os clássicos mundiais inconfundíveis sobre além-túmulo.

Mas o que Amaral está trabalhando aqui vai além da história e diz muito mais em como se conta ela. Ao descrever para nós essa família com seus membros isolados cada um em seus próprios medos, o filme ganha o tom de terror pelos elementos naturais que vão acrescentando à nossa psique a presença do sobrenatural de uma forma natural e convincente, tanto que quando algo de fato ocorre não parece destacado de todo o resto, mas sim uma continuação do que estávamos vendo.

A pequena Dalva (D’Alva, do Branco), interpretada com muita presença pela atriz-mirim Nina Medeiros, é uma criança acostumada com o sobrenatural e que, de acordo com sua tia, Cristina (seu nome também remete a algo: cristã católica), possui o dom de realizar desejos dos vivos no mundo dos mortos. A tia adverte, contudo, que ela deve usar esse dom apenas para o bem, pois o mal sempre volta para quem o fez, de uma forma ou de outra.

Luciana Paes está em segundo filme da diretora e aqui faz aquele personagem comum, que teme o sobrenatural, mas que ao mesmo tempo pede uma ajudinha para Santo Antônio para conseguir um bom partido. Acostumada com mandingas que vieram desse nosso folclore misturado de várias culturas, envolvendo santos e simpatias pagãs (e muitas vezes envolvendo sangue para maior força), sua Cristina fala com um sotaque e um trejeito que disfarça o roteiro com um tom natural magistral. Cada fala de Luciana Paes é um prazer no filme por resgatar a simplicidade e o medo da pessoa comum.

Já para a pequena Dalva a morte da mãe é uma situação material, mas nunca definitiva. Ela observa seu pai, Almir (Dinho Lima Flor), e vê claramente que ele nunca conseguiu se recuperar da morte da esposa, e por isso nunca foi um pai presente.

Os detalhes da trama misturam sobrenatural com drama de maneira eficiente, mas por este ser um filme do gênero terror, puxa muito mais para o lado sombrio. Dalva nunca sorri e raramente responde uma pergunta. Seu pai está sempre caminhando como se carregasse um pesado fardo em suas costas. Ele trabalha como pedreiro, e faz muito sentido estar sempre cansado.

E aproveitando essa profissão do personagem, quando ela é falada o filme corta para o túmulo de sua falecida esposa sendo exumado, quebrando os tijolos que a sepultaram. Ou seja, este é um trabalho com o gênero bem pensado. Não se trata de aspectos do terror jogados casualmente. Este é o melhor terror: o que existe na vida dos personagens.

Talvez o maior pecado do longa seja mesmo não conseguir criar algo novo. Referenciando todo o tempo os trabalhos Cemitério Maldito, onde o desejo pelo retorno dos mortos queridos causa uma maldição em uma família, e A Noite dos Mortos Vivos, clássico do cineasta George Romero, sobre a noite em que os mortos decidem voltar e se vingar dos vivos. Toda a atmosfera da história está sendo montada em cima dessas duas fáceis referências, tornando este terror brasileiro um ponto de entrada acessível para o grande público, mas se sabotando quando a questão é transcender o velho jogo da morte.

Por outro lado há uma criatividade latejante neste filme, que recicla suas referências com bom humor, como a figura do soldador como uma espécie de Ceifador das almas na Construção Civil. E nada pode ser mais assustador do que a imagem de dentes plantados em um copo como se fossem feijões de um trabalho escolar repousando sobre o criado-mudo de uma criança, ao lado dos cabelos de sua falecida mãe.

A Sombra do Pai é um terror dos bons, que conversas os clássicos e ainda possui uma identidade brasileira, se aproveitando de nossa enorme mescla de crendices e formas de enxergar o pós-vida. É de fácil acesso para o grande público, possui uma equipe técnica de talento (principalmente de fotografia, que consegue mostrar muitas cenas noturnas sem comprometer a qualidade) e acima de tudo uma diretora extremamente competente em controlar sua obra.

E ainda é um prazer enorme saber que há uma diretora brasileira que poderá dirigir mais filmes do gênero dialogando com nossa realidade.


“A Sombra do Pai” (Bra, 2018), escrito e dirigido por Gabriela Amaral, com Nina Medeiros, Luciana Paes e Dinho Lima Flor.


Trailer do Filme – A Sombra do Pai

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