por Wanderley Caloni
22 de janeiro de 2018

A Repartição do Tempo é a contribuição brasileira recente sobre filmes que discutem a não-unicidade dos indivíduos. E, como toda contribuição brasileira em um gênero de nicho muito específico, ela tropeça na realização pelos aspectos mais básicos. Como colocar Dedé Santana no filme.

A história tenta fazer um apanhado dos estereótipos recentes sobre política brasileira para retratar a repartição mais eficiente do serviço público: o departamento de patentes. E por apanhado eu quero dizer uma busca nas redes sociais na internet. Por isso expressões bipolares como “petralha”, “comunista” e similares serão jogadas no roteiro como verdadeiras piadas, mas apenas revela a falta de criatividade dos realizadores, que se limitam a repetir esses “xingamentos virtuais”.

Mas continuando: na história há uma máquina do tempo que é demonstrada inicialmente de uma maneira muito criativa, mas depois se perde nas mãos de um diretor que não parece fazer parte daquele ambiente burocrático/mama-tetas governamental e que tem ideias megalomaníacas para reverter a improdutividade sistêmica de seus subordinados. Não é nem preciso dizer que o uso que ele dá para a máquina do tempo se assemelha em inutilidade com o departamento que dirige. Eu duvido que outra pessoa (uma da vida real, por exemplo) fosse pensar em algo tão estúpido para fazer com uma máquina do tempo.

Formado por figuras sintomáticas da comédia brasileira, como a alcoólatra, a secretária gostosa, a funcionária boazinha (que deve usar vestido e cabelo preso) e o herói que nunca chegou nela, o engraçadinho e o veterano em nunca trabalhar, os personagens de A Repartição do Tempo apenas participam de quadros cômicos enquanto o fiapo de história milagrosamente vai avançando. Mas é tudo muito lento e precisamos passar pelas piadas até chegar onde interessa. Quer dizer, interessava, lá no começo.

Do meio para o final há uma bagunça generalizada que apela para reviravoltas fáceis e piadas manjadas. Dedé Santana é um péssimo comediante sozinho. Ele tenta fazer o policial bipolar em praticamente uma enquete de 5 minutos. Inicialmente calmo e tranquilo, vira um verdadeiro fascista após descobrir meia bituca de cigarro no armazém do departamento. Não estou muito certo se sua presença no longa constitui participação especial ou vergonha alheia.

A Repartição do Tempo Crítica

Já os atores, como o correto Edu Moraes, a perdida Bianca Müller e o desagradável Eucir da Souza (que faz o vilão) parecem ligeiramente perdidos em um filme cujos personagens são duplicados exatamente. Ora, se são “exatamente” qual a graça em vê-los em cena? Pois é.

Pelo menos uma coisa há de interessante no longa: a direção. O diretor estreante em longas Santiago Dellape realiza aqui um trabalho que de início contém enquadramentos curiosos (como dois elevadores gêmeos que realizam a primeira explicação da viagem no tempo), além de cenários inusitados, como um abrigo nuclear que lembra exatamente o escritório original do departamento (com a exceção que eles não têm direito a licença prêmio ou ir pra casa nesse “segundo escritório”).

Sem um tema facilmente identificável para explorar, A Repartição do Tempo apenas se aproveita da premissa de uma máquina do tempo no formato de relógio de ponto hipster para apelar para o velho subterfúgio de viagem no tempo, cruzamentos temporais, etc.. O pouco que faz com isso não justifica viajar no tempo. E tentar arrumar emoção onde não há sequer seres humanos completos é um desafio.


“Idem” (Bra, 2016), escrito por Davi Mattos e Santiago Dellape, dirigido por Santiago Dellape, com Edu Moraes, André Deca, Ricardo Pipo, Andrade Junior, Rosanna Viegas, Sérgio Sartório, Bidô Galvão, Dina Brandão, Carmem Moretzsohn, Selma Egrei, Sergio Hondjakoff, Tonico Pereira e Yasmim Sant’anna.


Trailer – A Repartição do Tempo

Outros artigos interessantes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.