A Qualquer Custo, a despeito de ser dirigido por um inglês, é mais texano possível, no mal e no bom sentido. Isso acaba se tornando aos poucos algo fenomenal, já que o estilo de vida do texano acaba virando um personagem a mais, ainda que não exatamente personificado em ninguém em particular. Apesar disso, eu usaria como representante da hospitalidade texana uma garçonete de uma cidadezinha que atende dois “Texas Rangers” com um mau humor (ou a falta de) peculiar, avisando que todos os que vão em seu restaurante pedem T-Steaks com batata. A única liberdade de seus clientes é tirar do prato ou o milho ou a vagem. Ah, e todos devem tomar chá.

E talvez o filme só exista justamente porque a história se passa no Texas. Pelo menos é o único lugar do mundo onde elementos essenciais em sua cultura como armas, liberdade individual e “poder falar o que quiser” convivem mais ou menos juntos com sua paisagem desértica, planícies sem fim e os comentários racistas dos mais velhos. Sim, eles falam o que quiser, muitas vezes na frente dos próprios ofendidos. E muitas vezes eles são o seu parceiro policial, aquele que deveria te proteger com a vida. Bom, pelo menos os mais velhos já são vistos com desconfiança e cautela. Quando o personagem de Jeff Bridges faz um desses comentários sobre o colega na frente do gerente do banco, o gerente conclui que Texas Rangers são pessoas estranhas, no que o colega retruca, corrigindo impaciente: não todos os Texas Rangers são estranhos, apenas ele (subtendido: esse velho).

E em meio a um tiroteio de palavras e ações ríspidas de A Qualquer Custo, a crise hipotecária americana não chega a ser exatamente um alvo, mas colabora imensamente para a narrativa. Os assaltantes procuram pequenos bancos em cidades praticamente mortas por causa da crise. Isso inclusive lembra um pouco de velho oeste, que é incitado logo no final (graças à direção inspirada de David Mackenzie e a edição precisa de Jake Roberts). O roteiro ainda faz um gancho utilizando o passado indígena do Texas, contando a história da invasão americana em suas terras há 150 anos, em uma conversa pra lá de inspirada em um dos momentos altos do longa, que termina fazendo uma rima temática que parece flertar sem sutileza com toda a potencialidade dramática do último filme do Tarantino (Os Oito Odiados, que contém um subtexto da violenta história americana).

Tudo isso é apaixonante em A Qualquer Custo, um filme que vai cativando o espectador aos poucos, sem muita pressa de tomar as rédeas de sua fabulosa e intrincada história, que embora pareça apenas mais um policial, se mostra um grandes desse ano. Quando menos percebemos ele vai se tornando mais intenso na ação, embora sempre se lembra que é o drama que o pavimenta; e se ação sem drama não vale a pena assistir, um drama seguido de ação é dez vezes mais eficiente. Principalmente se entendemos as motivações dos personagens, por mais insensatos que sejam.

Pois veja bem: os irmãos Tanner (Ben Foster) e Tobby (Chris Pine) resolvem assaltar bancos em uma região onde, todos sabem, é comum as pessoas andarem armadas (e saberem atirar). Isso, claro, não se torna um problema de imediato, porque o plano deles é sempre serem os primeiros a chegar (“quem cedo madruga…”, já dizia o mais velho, Tanner). Esse parece ser um bom plano, mas o próprio filme já anuncia a tragédia logo no começo, quando em um dos bancos eles encontram um velhinho armado que já lhes causa alguns problemas. E é curioso como o nível de “coragem” (ou estupidez) da dupla vai aumentando gradativamente (principalmente no personagem de Ben Foster), embora de maneira tempestuosa e cada vez mais imprevisível. É difícil acreditar que ele está no controle dos seus atos, ou que alguns atos descontrolados do sujeito acabam descanbando no que vemos no filme. Só o amor ao irmão explicaria… mas este não é um filme sobre amor, mas sobre ódio.

Ódio do passado, da exploração do sistema financeiro que tanto acusam de roubar-lhes, tendo os bancos como seus assistentes desalmados. Nessa atmosfera em que as pessoas, perdendo suas casas e lutando pra sobreviver, não estão apenas infelizes, mas rancorosas. E no meio desse ódio surge o personagem de Jeff Bridges, o “ranger” Marcus Hamilton, um policial quase se aposentando, durão e sem meias palavras, que aparece ao espectador como uma figura repulsiva onde temos todos os motivos para odiar, mas que só a persona de Bridges consegue usar isso ao seu favor e construir um personagem que de certa forma é vulnerável, mas se esconde em seu jeito durão e ríspido com as pessoas.

A Qualquer Custo Crítica

Já o personagem de Chris Pine, o irmão caçula Toby, pouco tem a dizer, mas quando diz também possui seu momento mágico ao lado do filho. Ele sabe que nunca foi bom exemplo para o menino, e faz questão de dizer isso para ele, como um conselho, talvez o único conselho de que é capaz. Sua atuação é mais expressiva através de seu olhar obstinado e sua forma quieta e pensativa de apoiar o irmão durante a execução do seu plano, como vemos em uma parada em um posto em que nenhuma comunicação entre eles é necessária para o desfecho que vemos. Pine, apesar de sentir o quanto perde o controle a cada novo assalto, tenta manter o seu equilibrio a todo momento, praticamente sumindo de sua persona nas comédias, e até mesmo da figura bonachona de seu primeiro Star Trek.

E Ben Foster, o homem da ação, consegue no meio dos dois criar um contrapeso necessário, um modo explosivo e tempestivo de fazer as coisas. São as cenas estáticas onde vemos os irmãos que sugerem toda uma dinâmica particular entre eles. Não são necessários diálogos expositivos para descobrirmos que um parece viciado em adrenalina, enquanto outro se utiliza dessa energia para por em prática um plano meticuloso, que o roteiro tem o bom senso de não explicar de uma vez ao espectador, que vai aos poucos entendendo todo o esquema que fará com que eles (teoricamente) saiam dessa.

Esse trio cria personagens que gostaria de ver em outros momentos, outras histórias, tão bom que funcionam junto quanto separados. O filme parece pegar um momento intenso na vida de todos, ou a síntese de cada uma de suas vidas. Quando isso acontece, A Qualquer Custo parece brincar um pouco de metalinguagem, ao usar mais uma aposentadoria de um policial com o último caso em mãos – um clichê automático – e um parceiro mestiço que será alvo de piadas. A aposentadoria de Jeff e seus comentários racistas lembram uma metalinguagem interessante, já que seu parceiro-índio é coadjuvante, e embora deva morrer primeiro, Bridges sugere que ele será o herói, sendo seu parceiro o vingador de sua morte.

Preenchendo com uma trilha sonora texana divertida com seus momentos dramáticos – e até um tema surpreendentemente eficiente – o filme possui uma direção naturalista que começa movimentando a câmera em um plano-sequência, mas que também interfere no que olhamos (como a grama no final, ou o uso elegante de girar do lado de fora da cena para em seguida adentrar em um veículo). O diretor David Mackenzie consegue manter o controle a todo momento, mostra a que veio, mas sem querer exagerar em qualquer ato. O resultado é um filme sóbrio, e por isso mesmo mais poderoso ainda.

Mas a estrela do filme é mesmo o roteiro. Escrito pelo ator Taylor Sheridan (que faz uma ponta aqui  e que já havia escrito Sicario: Terra de Ninguém, de Denis Villeneuve), seu trabalho se mostra como a prova viva de que roteiros originais podem não ser o mainstream em Hollywood, mas com certeza é de onde vem as melhores surpresas. Minucioso nos detalhes e mantendo o espectador sempre com uma pontinha de querer saber mais, Sheridan consegue caminhar passo-a-passo com ambos os lados da perseguição à distância, e mesmo que nada esteja ocorrendo é na mente dos perseguidores e perseguidos que a ação se desenrola.


“Hell or High Water” (USA, 2016), escrito por Taylor Sheridan, dirigido por David Mackenzie, com Dale Dickey, Ben Foster, Chris Pine, William Sterchi, Buck Taylor


Trailer – A Qualquer Custo

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