Por um segundo, Joe Carnahan foi a “bola da vez” de Hollywood, ali em algum lugar entre ele ser descoberto por trás do ótimo Narc, ter recusado dirigir um Missão Impossível e apostar todas suas fichas na besteira A Última Cartada, que foi um verdadeiro fracasso. O lado bom, é que esse fundo do poço, provavelmente, lhe obrigou a encarar a adaptação de Esquadrão Classe A, que ninguém acreditava pudesse funcionar, mas que, não só o fez como permitiu que, depois de dez anos, Carnahan continue sua carreira com A Perseguição.

De volta em sua carreira por que talvez seja esse filme que Carnahan merecesse fazer dez anos atrás, um exemplo, assim como Narc, de uma história que foge do comum, daquilo que todos esperam, mas atinge em cheio os amantes do gênero. Cuidadoso e eficiente, A Perseguição é o filme de sobrevivência que o cinema vez ou outra precisa ver para se lembrar como se faz.

Baseado no conto Ghost Walker, escrito pelo mesmo Ian Mackenzie Jeffers que escreveu o roteiro do menosprezado Sentença de Morte (e aqui divide o texto do filme com o diretor), A Perseguição parte de uma premissa simples mais que, por si só, ganha o espectador, já que é difícil imaginar algo pior do que sobreviver a um acidente de avião no meio do nada (parece ser em algum lugar no Alasca), mas que aqui ainda precisam sobreviver a uma matilha de lobos.

Na verdade A Perseguição funciona, justamente, por não ser “só isso”, mas sim conseguir equilibrar perfeitamente bem esses dois fatores, tanto os animais selvagens quanto o ambiente, sendo que ambos não parecem hesitar em impedir que esse pequeno grupo vá se tornando menor e menor. À frente desse grupo está Ottway (Liam Neeson) uma espécie de segurança da empresa, que protege os funcionários de ataques de lobos e outras espécies selvagens.

É claro que a situação pode parece “coincidência” demais, mas é ai que Carnahan mais acerta em cheio, já que todo aquele cuidado citado anteriormente não permite que nada em A Perseguição parece forçado. Primeiro por desenhar um protagonista doloroso e esfacelado, que sente que “parou de fazer qualquer bem ao mundo”, sem razão para sobreviver, mas que, assim como não consegue puxar o gatilho contra sim mesmo, não se permite desistir de viver, já que sua luta ainda não parece ter terminado.

E se visto assim A Perseguição parece ser mais que um filme de ação simples, é por que ele é exatamente isso: mais que só um grupo descartável fugindo de lobos. Carnahan então trabalha com a sobrevivência, com a força para conseguir fugir dessa matilha e ainda chegar à civilização, mesmo que não se permita ser otimista em nenhum dos dois fatores, como se, realmente, o que mais importa seja os personagens, mesmo que eles mesmos não entendam que tipo de provação é essa, sobrevivendo a um acidente para terem que sofrer tudo isso na sequencia.

De modo corajoso Carnahan não responde a isso de modo óbvio e, quase como se estivesse dirigindo uma drama existencialista, permite que cada personagem descubra por si só o que isso quer dizer, talvez encontrar a coragem de ter medo, ou voltar para junta da filha, da irmão ou do ente querido, talvez tentar dar mais valor ao que se tem em mãos e não ao que vem com a morte (ou seria o fim de tudo?). E ainda que pareça pretensão do roteiro tratar dessa profundidade no meio de um filme que, por definição, se mostra ser de ação, A Perseguição serve, justamente, para isso: para provar que existe sim a possibilidade de, mesmo diante da simplicidade de um acidente de avião e alguns lobos, sair da mesmice que assola uma enorme parte preguiçosa do cinema de Hollywood.

É lógico que toda essa “vontade de ser diferente” não serviria de nada se Carnahan não conseguisse traduzir tudo isso em imagens, e em A Perseguição, assim como fez em Narc, continua a comandar uma câmera nervosa que parece tentar ultrapassar a alma de seus personagens, colada em seus olhos e resumindo, principalmente o mundo do protagonista, ao pouco que sobra de composição. Assim como, aos poucos vai abrindo esse mundo, já que a vida desse homem deixa de ser só a dele, já que agora todos ali precisam ser um só.

Porém, ainda que dê um ritmo interessante e um visual poderoso, essa proximidade acaba prejudicando a clareza de certas cenas, principalmente no que condiz aos “encontros” entre os sobreviventes e os lobos, talvez até, propositalmente diminuindo a selvageria e o gore dessas imagens. Mas, por outro lado, essa opção estética cria então uma presença quase fantasmagórica dos animais, já que, durante todo tempo, assim como o ambiente (por meio de um cenário gélido e uma composição precisa dos efeitos sonoros que fazem todos no cinema compartilha da dor dos personagens), todo esse perigo é mais sentido do que visto. Desviar o olhar dos lobos também ajuda a não permitir que o espectador saia desse transe em que essa experiência os coloca, não conseguindo diferencia o verdadeiro animal, da computação (e do que mais tiverem usado em um trabalho impecável), já que a única coisa que se vê é a ameaça iminente.

A Perseguição então é aquele exemplo de filme que não permite que ninguém saia do cinema decepcionado, já que é impossível não torcer e se emocionar com esses homens. Esses sobreviventes.

PS:e se você quiser esperar pelo final dos créditos, pode ser que descubra o destino de dois personagens


The Greys(Bra, 2012) escrito por Joe Carnahan e Ian Mackenzie Jeffers, dirigido porJoe Carnahan , com Liam Neeson, Frank Grillo, Dermont Mulroney, Dallas Roberts, Joe Anderson, James badge Dale, Nonso Anonzie e Ben Bray.


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