Não entendo muito o conceito de ópera. Nem de balé. Representações caríssimas de uma história que nos faz voltar a uma época antes do Cinema, da TV e da internet pelo bem da manutenção de uma cultura considerada erudita já há muito tempo me parece um gasto desnecessário de recursos públicos. E claro que são recursos públicos. Ou você achou que alguém pagaria de livre e espontânea vontade por um espetáculo desses? E como em um momento é dito em A Ópera de Paris, há um jogo de interesses por trás da decisão de flutuar o preço entre cerca de 300 euros ou 150. E quando a discussão gira em torno de um ingresso mais “barato” de 150 euros, talvez seja a hora de abrir uma nova discussão: a de prioridades nos gastos do dinheiro dos outros.

No entanto, se você gosta dessas duas representações musicais e artísticas, e nunca entendeu como as coisas se desenrolam por detrás das cortinas, A Ópera de Paris é o documentário que você precisa assistir. Desde a administração, até a gerência e a condução, treino, assistência, maquiagem, figurino, limpeza, fotografia, música, canto e dança, todos os elementos preparatórios de um espetáculos são destrinchados aqui, neste filme do diretor Jean-Stéphane Bron, que observa astutamente momentos-chave de todos os envolvidos na produção e condução de um investimento imenso de tempo, recursos e pessoas.

Estamos falando de uma nova temporada que se abre da casa de shows que leve o nome do filme. Dirigido por Stephane Lissner, essa casa de espetáculos tem que lidar com sua viabilidade financeira e os inúmeros conflitos entre os trabalhadores e artistas. Além disso, tudo abaixo de Lissner meio que funciona de forma independente. O diretor de uma ópera parece um mero espectador, que se prepara para agir apenas quando é necessário, quando ele pega o telefone. Enquanto isso acompanhamos a escolha do novo jovem tenor, um garoto de um vilarejo da Rússia que sabe muito bem alemão e que se esforça para aprender francês e admira o trabalho de colegas mais experientes. Também observamos diferentes artistas, como bailarinas, professores de dança, condutores, coreografistas, etc.

Porém, os grandes astros dessa produção acabam sendo os trabalhadores mais comuns, que fazem a coisa acontecer. Direto da coordenação dos espetáculos, vemos o controle de horário, de script, de entradas e saídas no palco, e de treinos repetidos à exaustão para breves momentos performando de fato para um público pagante. É curioso como Jean-Stéphane consegue dividir o tempo com uma proporção realista entre o tempo que essas pessoas vivem atrás das cortinas em relação ao pouquíssimo tempo cantando, dançando e tocando para um público de fato.

A Ópera de Paris Crítica

Todo o mecanismo que faz a casa de shows funcionar é observada em seus pequenos detalhes. Eventos pontuais, como atentados terroristas ou greves nacionais (dois eventos bem comuns hoje em dia na França) são levados em conta conforme a ópera dança de acordo com o ritmo das coisas lá fora. Tudo parece girar em torno de antecipar cada problema e cada situação antes que ela se torne grave demais.

A consequência disso é que existe pouca tensão no filme, pois apesar de acompanharmos o caos de perto, ele parece estranhamente sob um controle mágico, invisível. E essa figura invisível, descobrimos no começo e vamos redescobrindo em momentos pontuais, é o diretor da casa, Stéphane Lissner. É por isso que o filme o situa em uma posição de observador atento e detrás das cortinas. E é por isso que ele nunca se sentará no camarote ao lado de políticos e celebridades para acompanhar um show. Ele precisa estar sempre conduzindo, como um maestro-mor, sua trupe de artistas e funcionários.

Iniciando como um trailer e se alongando desnecessariamente para conseguir agrupar todos os eventos e shows da temporada, A Ópera de Paris é um passeio simples e despretensioso pelo funcionamento de uma casa de ópera e balé. Mas muito informativo. E possui alguns momentos de distração com boa música e excelentes artistas. E quando digo artistas aqui incluo até o pessoal que é responsável por adestrar um imenso touro para o centro do palco. Os heróis invisíveis dessa vez aparecem dentro da cena.


“L’Opéra” (Sui/Fra, 2017), dirigido por Jean-Stéphane Bron, com Stéphane Lissner, Benjamin Millepied


Trailer – A Ópera de Paris

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