A Número Um | Um melodrama feminista sem maiores intenções

A Número Um Filme

A Número Um é um melodrama feminista sobre poder. Ele emprega diversos momentos picados de seus personagens para compor uma narrativa que vai se tornando ligeiramente exagerada em seu tom. Não há muito prazer ou emoção em acompanhar a heroína deste filme, que é triste do começo ao fim. Não se trata de ganhar uma batalha, mas de entender o que é a guerra.

E a guerra, na visão do grupo feminista que defende a candidatura da personagem de Emmanuelle Devos à presidência de uma grande corporação francesa, é conseguir representantes para sua causa em posições de poder mais altas possíveis. O preço para isso é o auto-sacrifício pessoal, dormir pouquíssimas horas por noite e a distância dos filhos.

Nada que a já bem-sucedida Emmanuelle Blachey (Devos) já não tenha alcançado. Órfã de mãe aos 10 anos em um acidente mal resolvido, ela se esforça 20 horas por dia para se manter no topo, esforço não respeitado por seu pai, professor, e que faz comentários ácidos sobre sua ascensão. Ela o continua visitando no hospital, porque essa dinâmica é o clássico caso da filha buscando aceitação (e sendo frustrada a cada tentativa). Emmanuelle Blachey/Devos é a que menos fala no filme todo e a que mais faz, diferente dos executivos homens, sempre conversando animadamente e despreocupadamente, como se não tivessem bilhões para comandar e milhares de trabalhadores para coordenar.

E eles obviamente são misóginos. Com uma certa sutileza, é verdade. O personagem mais misógino do filme fala que não vai sair para comer, pois onde está já tem almoço e a “sobremesa”, olhando para a secretária. O personagem é caracterizado por Benjamin Biolay com um sorriso hedônico e niilista a todo momento, mas por algum motivo se faz parecer presente em todos os momentos importantes da história.

A Número Um Crítica

Já o vilão da história, o manipulador Jean Beaumel (Richard Berry), comanda a minha cena preferida nessa briga velada entre os sexos. Ele pergunta à sua secretária se sobraram uns macarrones, aquele doce italiano com um formato peculiar. A cena fecha com ele mordendo um macarone e sentindo sua textura, e ela corta para duas mulheres andando pela rua.

Fora essa diversão despretensiosa sobre igualdade e a luta pelo poder corporativo, Emmanuelle Devos é o pilar moral de todo esse circo, se mantendo fiel aos seus princípios, mudando ligeiramente suas opiniões mais éticas apenas por um bem maior. Ela se transforma no circo que as corporações são, mas ao mesmo tempo nos faz entender que é assim que se dança a valsa neste mundo.

A diretora Tonie Marshall transforma o seu roteiro com Marion Doussot em um filme esquecível. Ela tem pressa em estabelecer o jogo de poder e se baseia pesadamente em diálogos reveladores para fazer isso, mas uma vez alcançado esse objetivo tudo se transforma mais ou menos em uma novela muito interessante de se ver, mas vazia de maiores ambições.


“Numéro Une” (Fra, 2017), escrito por Marion Doussot, Tonie Marshall, dirigido por Tonie Marshall, com Emmanuelle Devos, Suzanne Clément, Richard Berry


Trailer – A Número Um

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