Este ano, a Rússia produziu dois longas-metragens pertencentes a gêneros bastante diferentes para o país: o filme de super-heróis Os Guardiões, que não assisti, e o terror A Noiva. Entretanto, o que poderia ser uma oportunidade de conhecer um pouco da cultura russa por meio de um viés sobrenatural mostra-se uma obra genérica, bagunçada e entediante.

A Noiva até que começa promissor. Na cena inicial do longa, o fotográfo Barin (Igor Khripunov) nos conta sobre a antiga lenda que diz que, ao fotografar um cadáver, é possível manter sua alma aprisionada no negativo e, com isso, “transferi-la” para outro corpo. Após a morte de sua jovem esposa (Marina Alhamdan), com quem havia acabado de se casar, Barin decide testar a teoria — que funciona. Mas, ao encontrar-se no corpo estranho da garota que o fotógrafo sequestrou para seu experimento (Miroslava Karpovich), a esposa, é claro, já não é mais ela mesma.

Deixamos seu olhar desesperado ao ver-se pela primeira vez no espelho e pulamos para o presente, onde a universitária Nastya (Victoria Agalakova) acaba de se casar com Vanya (Vyacheslav Chepurchenko). Eles viajam, então, para a casa da família dele, onde Nastya conhece os pais do esposo — ou melhor, o pai, já que a mãe, aparentemente, está doente e, por isso, não sai da cama ou recebe visitas — e a irmã dele, Liza (Aleksandra Rebenok), que tem dois filhos pequenos. Nastya não se sente muito à vontade na casa isolada e antiga e, logo, seus receios mostram-se verdadeiros quando ela descobre que Vanya pode ter levado-a até lá como parte de um plano maligno de Liza.

Sim, é o que você deve estar pensando: a noiva trazida de volta à vida da introdução é a mãe de Vanya. O problema é que, conforme o corpo ocupado pela noiva envelhece, ela precisa de um novo receptáculo — e é aqui que Nastya entra na história. Não é a pior das premissas, mas o diretor e roteirista Svyatoslav Podgaevskiy parece não ter intenção alguma de criar um filme coeso e que faça jus ao suposto peso representado pela lenda em que se baseia (que não sabemos se faz parte ou não da cultura do país, o que poderia trazer mais camadas para o filme, mas não é necessariamente um defeito).

Novas informações parecem ser jogadas pelos personagens conforme as necessidades da trama, fazendo com que jamais possamos realmente ficar ansiosos ou tensos pelo que vai acontecer, já que não temos todas as peças necessárias para tanto. Para piorar, as atuações mostram-se tão rasas quanto as ambições do cineasta, o que nos impede de desenvolver qualquer tipo de sentimento para com os personagens — incluindo Nastya, que é uma das protagonistas mais pamonhas do terror moderno.

A Noiva Crítica

Por outro lado, não podemos culpar apenas Podgaevskiy ou os atores por isso, já que, sabe-se lá por que, A Noiva chegou aos cinemas brasileiros (ou, pelo menos, na cabine de imprensa) dublado em inglês e legendado em português. Acredite: ver um filme live-action dublado em inglês é uma experiência tão incômoda e pouco gratificante quanto assistir a um dublado em português. Adaptados para a língua inglesa, os diálogos perdem qualquer traço de naturalidade, como quando Liza mostra os dutos de ar de seu lar para Nastya e fala que “a casa foi feita desse jeito”.

Guiado constantemente por uma trilha sonora repetitiva e vazia, A Noiva ao menos mostra um pouco mais de esforço por parte do diretor de fotografia Ivan Burlakov. Seu trabalho não é particularmente memorável, mas cria algumas imagens bastante eficientes para a construção de uma atmosfera claustrofóbica e tensa, abusando de sombras, neblinas e da escuridão quase total. Mas, como nada disso é refletido nos demais elementos do longa, o impacto das imagens dura pouco. Enquanto isso, a personagem-título ganha um visual interessante, mas suas aparições em cena são tão anticlimáticas que ela jamais consegue se estabelecer como uma figura amedrontadora ou complexa.

Assim, A Noiva desperdiça o interesse despertado do fato de ser uma produção de gênero vinda de um país que não estamos acostumados a associar ao terror — e isso acontece não apenas pelos problemas do longa, mas também pelo fato de sermos privados de assisti-lo em seu idioma original. O resultado é, então, um longa descartável e que não sabe explorar seus poucos elementos eficientes.


“Nevesta” (Rússia, 2017), escrito e dirigido por Svyatoslav Podgaevskiy, com Victoria Agalakova, Vyacheslav Chepurchenko, Aleksandra Rebenok, Igor Khripunov, Natalia Grinshpun, Victor Solovyev, Marina Alhamdan e Miroslava Karpovich.


Trailer – A Noiva

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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