A Noite do Jogo | Umas das grandes comédias do ano

A Noite do Jogo Filme

A Noite do Jogo pega suas ideias e as explora ao máximo, brincando com as convenções dos filmes de ação e de investigação e, também, com o desenrolar de sua própria trama. Juntando isso a um senso de humor esperto e verdadeiramente divertido, a um elenco talentoso que cria personagens carismáticos e a uma direção dinâmica e eficiente, o resultado é uma comédia mainstream hollywoodiana como poucas.

Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) são apaixonados por jogos de todos os tipos — eles se conheceram e se encantaram imediatamente um pelo outro quando ambos responderam ao mesmo tempo à pergunta “Qual é o nome do Teletubbie roxo?” no campeonato de trívia de um bar. Até mesmo a proposta de casamento teve o envolvimento de um jogo de adivinhações. Ao longo dos anos, as noites de jogos na casa de Max e Annie tornou-se uma tradição entre os amigos do casal. Mas, quando o bem-sucedido irmão dele, Brooks (Kyle Chandler), volta para a cidade a negócios e decide organizar a brincadeira em sua casa, Max se esforça para segurar o ciúme nascido de uma longa rivalidade entre os dois.

Brooks decide “apimentar” as coisas e, em vez de comportados jogos de tabuleiro, contrata uma empresa para organizar o seu sequestro fictício para que os outros participantes — Max; Annie; o casal Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury), juntos desde a adolescência; e o mulherengo Ryan (Billy Magnussen) e sua colega de trabalho, Sarah (Sharon Horgan) — desvendem as pistas e descubram seu paradeiro. Entretanto, sem que ninguém desconfie, Brooks é sequestrado de verdade e, agora, a vida de todos está em risco e o grupo precisa colocar as suas habilidades em prática para solucionar o mistério.

Quem nunca imaginou-se enfrentando as situações perigosas e cheias de aventura de filmes, séries e jogos? Grande parte do fascínio exercido por filmes, séries e jogos é a possibilidade de nos colocar dentro de contextos que nos empolgam justamente por serem fictícios — gostamos de exercer a criatividade e pensar no que faríamos diante de um apocalipse zumbi, por exemplo, mas ninguém, é claro, realmente quer que algo assim aconteça.

A Noite do Jogo explora muito bem isso. Mesmo presenciando cenas absurdamente violentas e perigosas, os personagens mantinham-se empolgados por acharem que tudo aquilo fazia parte da brincadeira planejada por Brooks; mas, quando eles percebem que, na verdade, ele realmente está em perigo, a animação é substituída por um medo real, que é superado apenas pelo fato de que eles precisam fazer alguma coisa para salvar Brooks e eles mesmos (há boas justificativas para que nenhum deles possa procurar a polícia).

Mas, é claro, as decisões tomadas por Max, Annie e seus amigos são motivadas principalmente pela experiência que o grupo tem com os seus adorados jogos e, também, pelos filmes de ação e espionagem que o casal central adora. Assim, é divertidíssimo ver as maneiras estapafúrdias que esse bando de pessoas comuns — e bastante nerds — encontram ao longo do filme, como quando Annie acidentalmente atira em Max e é obrigada a tirar a bala do braço dele e costurar a ferida, ou quando Michelle e Kevin deparam-se na clássica situação de estarem presos em um cômodo de onde a única saída é escapar pelo teto. Nesse sentido, uma das melhores cenas do longa é aquela em que os amigos precisam tomar posse de um artefato, que torna-se uma verdadeira partida de batata quente filmada em um plano-sequência pelos diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein.

A Noite do Jogo Crítica

Aliás, a direção ágil e competente da dupla é uma das maiores responsáveis por elevar A Noite do Jogo. Auxiliada pela montagem dinâmica e fluida de David Egan, Jamie Gross e Gregory Plotkin, o já mencionado plano-sequência e a montagem de abertura que acompanha o momento em que Max e Annie se conhecem até o presente, por exemplo, trazem energia, estilo e personalidade ao longa. Merece destaque, também, a identidade visual da produção, que traz os logos da vinheta inicial caindo pela tela como peças de um jogo e algumas das ambientações, como a vizinhança do casal, surgindo como cenários de tabuleiro em establishing shots antes de tornarem-se “reais”.

E não posso deixar de mencionar a empolgante trilha sonora de Cliff Martinez, responsável pelas trilhas geniais de, por exemplo, Drive e da série The Knick. É impressionante como Martinez adaptou seu estilo característico para uma comédia, aproveitando-se ao máximo dos elementos mais tensos e violentos da trama e, também, dos acordes eletrônicos típico de seu trabalho que, aqui, tornam-se referências ao mundo dos jogos.

E se A Noite do Jogo une todos esses elementos tão bem, isso também acontece graças a um elenco formado por atores talentosos e que têm em mãos personagens multifacetados e carismáticos. Jason Bateman e Rachel McAdams estabelecem uma química natural e afetuosa entre Max e Annie, transformando o casal em um verdadeiro time — o que traz peso aos conflitos emocionais entre eles. Enquanto isso, as duplas coadjuvantes também constroem dinâmicas eficientes e, ainda que o filme não dedique tanto tempo aos dilemas deles, as soluções da trama mostram-se eficazes e espertas dentro da proposta do longa.

Por exemplo, quando o roteirista Mark Perez pega duas situações pouco inspiradas (e com uma boa dose de misoginia) e vira-as quase que do avesso, fazendo jus à originalidade que permeia a produção. Lamorne Morris e Kylie Bunbury divertem-se com uma subtrama que termina com a conclusão mais absurdamente criativa para os ciúmes que Kevin sente ao descobrir que ele não é o único homem com quem Michelle já transou, enquanto a sucessão de namoradas burras e fúteis do Ryan de Billy Magnussen faz mais sentido quando percebemos que ele também não é nenhum gênio. Enquanto isso, Sharon Horgan aproveita o fato de sua personagem ser uma desconhecida do restante do grupo para envolver-se com o mistério e a tensão do sequestro sem tanta da preocupação exibida pelos demais personagens. Para fechar o elenco, além de participações eficientes, há Gary, o sinistro vizinho vivido por Jesse Plemons e que rende alguns dos melhores momentos do filme.

O roteiro de Perez é eficaz por não apenas brincar com as convenções de filmes de gênero, mas também por saber o quanto a sua própria trama é repleta de reviravoltas que poderiam muito bem tornar-se forçadas… Se ele mesmo não fizesse questão de brincar também com isso e de mostrar que sabe muito bem o nível de absurdo que quer atingir. Em meio a tudo isso, A Noite do Jogo não precisa gastar tempo para estabelecer as personalidades e trajetórias de seus personagens, pois eles constroem-se com naturalidade.

Assim, A Noite do Jogo estabelece-se como uma das melhores comédias mainstream do cinema recente. Ágil, realmente divertida (daquelas que podem ser vistas e revistas sem parar de fazer rir) e esperta, a produção ainda funciona como a história de um casal que decide enfrentar juntos todos os desafios, sejam eles cotidianos ou extremamente perigosos.


“Game Night” (EUA, 2018), escrito por Mark Perez, dirigido por John Francis Daley e Jonathan Goldstein, com Jason Bateman, Rachel McAdams, Kyle Chandler, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Billy Magnussen, Sharon Horgan, Jesse Plemons, Michael C. Hall, Danny Huston, Camille Chen e Chelsea Peretti.


A Noite do Jogo

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