Múmias, vampiros e criaturas pré-históricas eram parte integral da cultura popular muito antes de a Universal dar início a seus clássicos estrelados pelos monstros em 1931, com o Drácula protagonizado por Bela Lugosi. Naquela época e até hoje, o cinema sabe muito bem o quão propriedades já estabelecidas podem ser lucrativas. Agora, em tempos de universos estendidos, o estúdio busca resgatar esse sucesso com o novo Dark Universe, cujo pontapé foi dado por este A Múmia.

Se esse primeiro esforço é indicação do que está por vir, a empreitada da Universal está fadada ao fracasso e ao esquecimento.

Novas versões de histórias conhecidíssimas podem dar muito certo. Especialmente quando falamos de monstros, há uma infinitude de ângulos, estéticas e personagens que podem ser explorados. Entretanto, o estúdio preferiu abrir mão de tudo isso em favor de uma produção genérica, sem personalidade ou ao menos com alguma coesão interna.

Assim, a introdução expositiva narrada por Russell Crowe nos apresenta a Ahmanet (Sofia Boutella), princesa egípcia que perdeu seu direito ao trono quando seu pai teve um filho com a segunda esposa. Depois de crescer preparando-se para reinar, Ahmanet não aceita a derrota e, então, “se entrega ao mal” e faz um pacto com o deus da morte. Entretanto, antes de terminar seu ritual maligno, ela é mumificada ainda viva. Seu sarcófago é levado para onde hoje fica o Iraque, e é lá que os militares Nick Morton (Tom Cruise) e Chris Vail (Jake Johnson), acompanhados pela Dra. Jennifer Halsey (Annabelle Wallis) a encontram. Ao transportar Ahmanet de volta a Londres, o poder da múmia se manifesta e o avião cai, libertando Ahmanet e permitindo que ela tente concluir seus planos.

Logo de início, percebe-se que o diretor Alex Kurtzman não sabe controlar o tom de seu filme. Enquanto momentos de tensão e de ação começam e terminam sem realmente causar impacto, diálogos supostamente engraçados dificilmente funcionam. A narrativa se move sem ritmo, e a impressão é a de que os três escritores responsáveis pelo roteiro (que é baseado em uma história pensada por outros três roteiristas, sendo um deles o próprio Kurtzman) não leram todas as páginas em sequência uma única vez. Os efeitos especiais só impressionam no que diz respeito à princesa egípcia, e é apenas sua elaborada tumba que se destaca dentro do design de produção. As frequentes cenas de ação não são nada inspiradas, e a única que chega perto de ser interessante — a sequência do avião em gravidade zero — torna-se repetitiva bem antes de terminar.

Mas se o humor falha, isso também é devido ao elenco. Comediante experiente, Jake Johnson é o único que parece saber o que está fazendo, mas é prejudicado pela inutilidade completa de seu personagem. Annabelle Wallis, por sua vez, representa o tipo mais raso de personagem feminina — servindo apenas para “inspirar” o protagonista, colocando-se em situações de perigo para que ele possa agir como herói e salvá-la — e, para piorar, apresenta um timing cômico nulo. Já Tom Cruise… O que dizer de Tom Cruise? Ele parece estar vivendo um papel destinado a um ator pelo menos 20 anos mais novo, pois Nick Morton também é o tipo mais raso de personagem masculino: patético, canastrão, irresponsável, imaturo, babaca até que resolva se mostrar corajoso e ser considerado heroico. Chega a ser impressionante a falta de carisma completa que Cruise demonstra aqui, já que ele costuma ser um ator envolvente.

Diante da mediocridade que a cerca, Sofia Boutella não tem dificuldade alguma em roubar o filme para si, e é frustrante perceber o quanto sua versão da Múmia merecia um filme melhor. Boutella, que se destacou como a alienígena Jaylah em Star Trek: Sem Fronteiras (e a Gazelle de Kingsman), abraça a natureza monstruosa da princesa egípcia, tornando-a ameaçadora mesmo em sua forma humana. Movendo-se com segurança e através de gestos lentos certeiros, Boutella faz de Ahmanet uma antagonista intrigante. Enquanto isso, sua trajetória enquanto herdeira ao trono que perde seu direito simplesmente porque homens têm preferência mesmo não sendo primogênitos poderia trazer uma complexidade bem-vinda à trama. Mas em momento algum o filme chega à altura do monstro-título.

O que é especialmente absurdo se pensarmos que a ideia do Dark Universe é justamente celebrar esses monstros. Mas talvez isso seja otimista demais; se nos guiarmos pela lógica demonstrada aqui, o estúdio realmente só está interessado em lucro fácil (e talvez nem isso se concretize, obviamente). Estabelecer conexões entre diferentes filmes e trabalhar isso não é um problema… quando é bem feito. No segundo ato, A Múmia novamente perde controle de seu tom quando introduz Russell Crowe como o Dr. Henry Jekyll, o diretor da S.H.I.E.- opa, da Prodigium, uma sociedade secreta dedicada a combater os monstros que assolam a humanidade. Ou melhor, supostamente assolam a humanidade, porque não recebemos indicação alguma do que a organização já havia feito até então.

A Múmia Crítica

Há, é claro, o Mr. Hyde que toma conta de Jekyll se ele não injetar um misterioso remédio em suas veias. Isso nos leva a mais um exemplo da falta de lógica do filme: a sede da Prodigium é devidamente preparada para conter Hyde, mas, quando ele é trancado em uma sala protegida por uma pesada porta, o protagonista consegue entrar no cômodo através de uma outra porta que, bem ao lado, encontra-se aberta. E não podemos nos esquecer da Londres que, depois de ser assolada por uma épica tempestade de areia, não é mostrada novamente. Ou da conversa entre Ahmanet e Nick, que começa em egípcio antigo para mostrar a conexão entre os dois até que o filme se cansa e resolve voltar para o inglês — o que ainda empalidece o posterior fato de que a antagonista chega a aprender o idioma.

Mas mais incômoda é a maneira com que A Múmia parece enxergar a natureza do mal. “O mal é a sombra que existe do lado externo de nosso mundo”, declara Jekyll. Seu personagem ilustra a dualidade do homem, mas a Universal (não responsabilizemos Kurtzman, que é claramente um fantoche nas mãos do estúdio) prefere literalizar seu conflito e isentar os seres humanos da culpa por sua monstruosidade interior. Mesmo Ahmanet é descrita como “ter se entregado ao mal”, algo que inicialmente a assusta e, enquanto isso, a personalidade do protagonista não chega nem perto de criar um arco dramático capaz de ilustrar essa trajetória.

O roteiro se dedica fortemente a empregar as palavras-chave do Dark Universe tantas vezes quanto possível, fazendo com que praticamente todo diálogo contenha os termos “mal” e “monstro”. Entretanto, apesar do nome, não há nada de sombrio aqui; trata-se de uma aventura de ação, algo que A Múmia de 1999 já havia feito com muito mais eficiência.

Assim, quando o longa encerra com a conclusão de que determinado personagem “é um monstro agora”, a impressão é de que aquilo só acontece porque o filme era obrigado a terminar daquele jeito.

Patético a ponto de arrancar risadas involuntárias, A Múmia dá início ao Dark Universe da maneira menos inspirada possível. Desperdiçando seu monstro em meio a personagens medíocres e a uma atmosfera bagunçada, o longa não consegue nem cumprir seu objetivo de nos deixar ansiosos para o próximo volume da “nova” franquia da Universal.


“The Mummy” (EUA, 2017), escrito por David Koepp, Christopher McQuarrie e Dylan Cussman, dirigido por Alex Kurtzman, com Tom Cruise, Sofia Boutella, Russell Crowe, Annabelle Wallis, Jake Johnson, Courtney B. Vance e Marwan Kenzari.


Trailer – A Múmia

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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