Desde 2009, a Blumhouse Productions vem se estabelecendo no mercado cinematográfico, especialmente dentro do gênero terror, em sucessos como Atividade Paranormal, Sobrenatural“, Uma Noite de Crime, Oculus, Ouija e A Visita, ganhando ainda mais prestigio com produções celebradas pela crítica como Whiplash e Corra!. Por isso, entre sucessos (como esses citados) e fracassos (alguns outros já esquecidos), a  Blumhouse deixa sempre a impressão da chance de nos depararmos com uma agradável surpresa — como é o caso deste A Morte Te Dá Parabéns, um longa eficiente que consegue divertir e causar certa tensão.

Tree Gelbman (Jessica Rothe) acorda no dia de seu aniversário com uma imensa ressaca e já sem paciência para tudo o que o dia promete, desde o almoço com o pai, ao qual ela não comparece, ou o cupcake que ganha de sua colega de quarto, que Tree joga no lixo. Parte disso vem do fato de que a mãe da estudante, com quem ela dividia o mesmo aniversário, morreu há três anos, mas Tree não se esforça muito para esconder o quanto despreza todos ao seu redor. Até que, a caminho de uma festa naquela noite, Tree é brutalmente assassinada por um sujeito mascarado — apenas para acordar novamente no início daquela manhã. A partir daí, Tree fica presa a esse círculo, forçada a reviver um dia desagradável, a ser morta e a repetir tudo de novo. Depois de contar a situação para Carter Davis (Israel Broussard), no quarto de quem ela acorda na manhã de seu aniversário, os dois decidem que, para libertar-se desse ciclo, Tree deve descobrir quem a matou.

Há uma piadinha aqui em referência a Feitiço do Tempo, mas a trama lembra mais No Limite do Amanhã, no sentido de que Tree passa a colher mais e mais informações a cada vez em que acorda depois de sua morte. Há sustos ocasionais, reviravoltas e cenas bastante tensas aqui, mas o diretor Christopher Landon e o roteirista Scott Lobdell adotam um tom mais irônico e irreverente, investindo no humor e no absurdo da situação — algo que o filme faz com sucesso. Jessica Rothe é fundamental para isso, pois a atriz demonstra talento e um ótimo timing cômico, fazendo de Tree uma jovem carismática e uma protagonista interessante e multifacetada. Ela frequentemente demonstra ser egoísta, sim, mas o longa acerta ao estabelecer também o quanto isso é uma forma de ela se isolar (e, consequentemente, de se proteger), em grande parte por Tree ainda estar lidando com a perda da mãe, de quem era muito próxima. Dessa forma, o arco dramático que ela percorre estabelece-se como algo natural, resultado de suas experiências, e não forçado ou repentino. As demais performances são propositalmente caricatas — há a compreensiva colega de quarto, a insuportável líder da sororidade, o atleta ignorante… A exceção é Carter, vivido por Israel Broussard, com quem Rothe estabelece uma dinâmica simpática, pois a doçura do rapaz é um contraponto perfeito à energia explosiva de Tree — e outro acerto de A Morte Te Dá Parabéns é não forçar a barra na subtrama romântica do longa.

Como diretor, Landon faz um trabalho competente, sabendo o que e quando mostrar para causar os efeitos desejados no espectador. Ele e o montador Gregory Plotkin se saem particularmente bem no desenvolvimento do ritmo do longa, que é ágil e eficiente ao estabelecer os diferentes detalhes que Tree descobre a cada ciclo, conforme ela vai tomando decisões diferentes que a levam para outros pontos do dia ou, até mesmo, que a permitem estender seu tempo de vida por alguns minutos ou horas. Há ainda alguns raccords visuais que ajudam na fluidez da montagem — meu preferido é o corte entre dois movimentos panôramicos de câmera, o primeiro acompanhando o corpo de Tree em queda e o segundo, um establishing shot que sobe pelos imponentes prédios da universidade.

A Morte Te Dá Parabéns Crítica

Há alguns pontos forçados na trama, é claro. Um personagem importantíssimo surge repentinamente no terceiro ato, mas o longa teria se beneficiado de pelo menos algumas pistas que indicassem sua presença. Além disso, ao descobrir que Tree morreu no dia de seu aniversário, Carter imediatamente conclui que isso significa que o assassino sabia desse fato — algo embasado em… absolutamente nada. Sim, isso é o que deixa Tree presa em seu looping, pois cria algum evento cósmico simbólico (que o longa acertadamente não tenta explicar), mas não há evidência alguma de que os planos do assassino envolviam matar Tree no dia de seu nascimento. As diferentes formas com que Tree é assassinada também não são particularmente criativas, algo que também é resultado da falta de sangue e gore deste filme.

Mas isso não atrapalha a experiência divertida que é assistir a A Morte Te Dá Parabéns, que traz um twist eficiente e original aos filmes de slasher. Não é algo que vá reinventar o gênero como Pânico fez, mas também não há pretensão alguma para isso. Assim, o resultado é uma eficiente comédia de horror que se beneficia pelo trabalho confiante e competente — mesmo que com ressalvas — tanto dos cineastas quanto de sua atriz principal.


“Happy Death Day” (EUA, 2017), escrito por Scott Lobdell, dirigido por Christopher Landon, com Jessica Rothe, Israel Broussard, Ruby Modine, Rachel Matthews, Charles Aitken, Jason Bayle, Phi Vu, Donna Duplantier, Rob Mello e Cariella Smith.


Trailer – A Morte de Dá Parabéns

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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