por Mariana González
28 de fevereiro de 2018

Atormentada pelo fato de que sua fortuna só existe graças a um objeto desenhado para matar, Sarah Winchester decide construir uma mansão de arquitetura inconsistente e em constante expansão para atrair e pacificar os fantasmas das vítimas dos Rifles Winchester. Até aí, a história é verdadeira — a Mansão Winchester é, hoje, uma popular atração turística em San Jose, na Califórnia. Na adaptação cinematográfica, o lado paranormal também torna-se verdadeiro, nesta que é uma premissa interessantíssima e que, surpreendentemente, ainda não havia chegado à telona. Portanto, é uma pena que A Maldição da Casa Winchester não aprecie a peculiaridade do que tem nas mãos, tanto em termos de cenário quanto em relação à fascinante herdeira.

No início do século 20, Sarah Winchester (Helen Mirren), viúva de William Winchester, comanda a empresa do marido depois de sua morte súbita — acontecimento que, somado à perda de sua filha, Annie, a deixou em um luto profundo, transmitido aqui pelas roupas pretas e sombrias de Sarah. Com o avanço da construção de sua misteriosa e inexplicável mansão, os demais acionistas da Winchester Repeating Arms Company buscam provas concretas de que Sarah é mentalmente instável, o que a tiraria do comando da companhia. Para comprovar sua sanidade, ela convida o Dr. Eric Price (Jason Clarke) para passar alguns dias em sua mansão, o que ele relutantemente aceita após ter se entregado a uma rotina destrutiva depois do suicídio da esposa, Nancy (Emm Wiseman) — ato cometido por meio de uma Winchester. Na propriedade, além de Sarah, Price também conhece a sobrinha dela, Marion (Sarah Snook) e seu filho, o garotinho Henry (Finn Scicluna-O\’Prey).

O que poderia ser a maior força de A Maldição da Casa Winchester logo mostra-se a maior prova da falta de imaginação (para não dizer de talento) dos irmãos Michael e Peter Spierig — que, além de assinar a direção, também escreveram o roteiro ao lado de Tom Vaughan. E estou falando da própria Casa Winchester.

A mansão que dá título ao filme é, em teoria, um verdadeiro labirinto desconexo, repleto de portas falsas e escadas e corredores que não chegam a lugar algum, algo que confunde e intriga com seus cômodos construídos cada um a sua maneira — não parece haver razão ou estilo que una cada espaço da construção, já que cada cômodo é erguido à imagem do local em que os fantasmas que se aproximam de Sarah morreram. Os espíritos, então, vão até aquele ambiente para que Sarah possa ajudá-los a encontrar paz e \”seguir adiante\”; depois que esse objetivo é cumprido, o cômodo é demolido. Além disso, há peculiaridades na casa originadas da própria Sarah, como as extensas rampas que erguem-se aos poucos, já que, por causa de sua artrite, a herdeira não conseguiria subir escadas tradicionais.

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Entretanto, os irmãos Spierig não dedicam muito tempo para que o espectador possa habituar-se ou conhecer a mansão, o que a reduz a um cenário tradicional (e não particularmente interessante) do gênero. Isso acontece também, é claro, graças ao design de produção de Matthew Putland, que pelo menos caprichou mais nos objetos e retratos que adornam a casa. Mas essa falta de ambição atinge ainda o diretor de fotografia Ben Nott, que limita-se a uma luz sutil e que pouco explora os cantos escuros e as variações de ambiente, e isso tudo termina com o montador Matt Villa, que pouco tem a fazer em um longa nada interessado em fugir da fórmula \”aparição súbita + sons altos\” na construção de seus sustos.

Quanto ao elenco, Jason Clarke faz um trabalho eficiente ao transmitir os conflitos internos e a mudança de pensamento do Dr. Price conforme ele mergulha cada vez mais na aparente loucura de Sarah. Mas, felizmente, A Maldição da Casa Winchester compreende que, mesmo que o médico seja o protagonista, o comando da história encontra-se nas mãos de Sarah. Helen Mirren faz um trabalho fascinante e sensível e dá vida à mulher que carrega nas costas o peso dos feitos realizados pelas invenções de seu marido, algo que ela mesma explica como \”uma maldade que a segue como uma sombra\”. Aliás, o filme acerta também ao reconhecer que uma arma não tem função alguma a não ser matar e, nesse sentido, sua temática é assustadoramente atual, especialmente considerando que esta é uma produção norte-americana (em parceria com produtores australianos).

Assim, o resultado final é uma obra que poucas vezes mostra reconhecer o potencial que tem nas mãos, já que A Maldição da Casa Winchester conta uma história não apenas ainda relevante, mas que ainda não é conhecida do grande público. É uma pena, portanto, que os irmãos Spierig tratem-na como mais um exemplar genérico e esquecível do gênero.


\”Winchester\” (EUA/Austrália, 2018), escrito por Tom Vaughan, Michael Spierig e Peter Spierig, dirigido por Michael Spierig e Peter Spierig, com Helen Mirren, Jason Clarke, Sarah Snook, Finn Scicluna-O\’Prey, Emm Wiseman e Tyler Coppin.


Trailer – A Maldição da Casa Winchester

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