A Hora Mais Escura | Necessário

A Hora Mais Escura

Antes de qualquer coisa, A Hora Mais Escura é um filme necessário. Uma história que precisava ser contada, principalmente para todos aqueles que acordaram naquela manhã de onze de setembro e viram as duas torres do World Trade Center cederem e matar mais de duas mil pessoas. Um fato que aconteceu pouco mais de uma década atrás e ainda assombra os Estados Unidos.

Mas a maior sorte disso tudo é essa história ter caído no colo da dupla Kathryn Bigelow e Mark Boal, diretora e roteirista do ganhador do Oscar Guerra ao Terror e que agora têm a oportunidade de expor esses dez anos de uma busca e acaba se tornando um ponto chave da história desse começo de século XXI. Sem exageros.

Sem certo ou errado, direita, esquerda ou qualquer ideologia, apenas um sentimento de vingança que fez os EUA proclamar uma guerra contra não só um país (na verdade dois), mas sim contra toda uma região e até um povo, estivessem onde estivessem. Tudo para capturar um único homem. E se a princípio A Hora Mais Escura começou a ser feito para discutir essa “década perdida” e obscurecida por essa procura, acabou ganhando de presente um fato que o fez deixar de ser o “filme sobre a procura pelo Bin Laden” para se transformar no “filme da captura de Bin Laden”. Bom, nem tanto captura, muito mais para execução.

E nesse momento volta ao assunto o cuidado com que Bigelow e Boal criam esse mosaico de narrativas (quase episódicas) que culminam na ação que eliminou o terrorista, mas começa lá atrás, com uma tela escura e as gravações reais das vítimas da tragédia de 11/9, convidando o espectador a, de imediato, aceitar qualquer coisa que venha acontecer na sequência, qualquer método e qualquer criança ou mulher que seja pega no fogo cruzado. Já que a vingança diante do monstro que fez aquilo justifica qualquer meio.

Bigelow não faz isso por trapaça, mas sim pela necessidade de pedir essa identificação universal, de aceitar o prisioneiro árabe sendo torturado logo no começo do filme (além de um verdadeiro tour por um punhado de “prisões secretas” da CIA que deixariam Guantánamo com inveja). Do mesmo público que irá, sem questionamento, ficar triste e preocupado com o discurso do novo presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, acabando com a tortura. Justamente no momento em que todos passavam a achar que aquilo poderia funcionar.

Entretanto, A Hora Mais Escura não glorifica a tortura, mas sim se sente obrigado a encará-la, como faz a agente vivida por Jessica Chastain ao desviar o olhar em um primeiro momento, mas sabendo que aquele é o único jeito (ainda que consiga a informação que quer de modo muito mais inteligente). E em parte, o filme é justamente sobre essa agente, Maya, que chega ao Paquistão para compor uma força especial responsável pela busca de Bin Laden e acaba dando de cara com um pequeno detalhe que, literalmente, lhe leva diretamente até a casa do terrorista.

Em um trabalho de pesquisa extraordinário de Mark Boal, A Hora Mais Escura percorre então toda essa investigação, todos os becos sem saída, todas as reviravoltas e surpresas, toda burocracia e politicagem que essa agente (que, assim como todo roteiro, é sim baseado em fatos reais) precisa sofrer e ultrapassar para conseguir esse objetivo. Um objetivo que a torna a heroína de uma nação, mas à custa de uma vida que termina em lágrimas dentro de um avião com só ela no manifesto. Uma heroína que termina incógnita. O “motherfucker” que encontrou aquela casa, mas que ninguém vai nunca conhecer.

A Hora Mais Escura Filme

Mas tanto Boal quanto Bigelow sabem que essa história é muito maior do que, simplesmente, uma única personagem, o que dá um dinamismo descomunal à A Hora Mais Escura. Cada situação e personagem que compõem esse mosaico são tratados como protagonistas e clímax (o que facilita mais ainda diante da estrutura geral do filme, separada por “subtítulos”), e que permite que a tensão de cada sequência afunde ainda mais o espectador na poltrona. Cada nome descoberto, cada detalhe que surge aos olhos de Maya, cada decisão do governo e cada atentado, são tratados com a devida importância que têm, já que sem eles seria impossível enxergar o retrato maior.

E talvez seja isso mesmo, A Hora Mais Escura se esforça para ser um retrato preciso de tudo que aconteceu, tão preciso quantos os vinte e poucos minutos que duram a ação dos SEALs (tanto no filme quanto no acontecimento real). Como se, doendo a quem doer, Bigelow só estivesse interessada em respeitar a realidade, que, quase sempre, é bem melhor que qualquer ficção.

E por mais que, esteticamente, Bigelow, pareça trazer essa realidade com uma câmera na mão (com a ajuda da fotografia precisa e sem medo de Greg Fraser), a diretora o faz, justamente, por fingir esse estilo documental, mas para presentear uma série de composições precisas e que preenchem a tela sem ser refém de uma ou outra tremida. Do mesmo jeito que mergulha no escuro da real ação final (escuro mesmo, mas que casa perfeito com o clima) ao invés de tomar caminhos preguiçosos e esverdear a sequencia inteira com o modo visão noturno da câmera ligado (que seria o caminho de 90% dos cineastas de ação de Hollywood).

Bigelow então mostra que, por mais que tenha pela frente um filme que ajuda os Estados Unidos a se vingar de seu maior inimigo, daqueles com um plano da bandeira americana tremulando, sabe também que precisa “atrapalhar” essa visão patriótica com um pano camuflado. Uma lembrança de que, mesmo heroico e intenso, A Hora Mais Escura (como o título nacional acertadamente aponta) é sobre esse véu escuro que não deixa nada impune em uma situação tão pouco confortável quanto uma caçada de dez anos ao custo da vida de um número muito maior de vidas perdidas no World Trade Center e que termina com um tiro no terceiro andar de uma mansão no meio do deserto. Vítimas (e órfãos, como a própria agente Maya) de uma guerra que a maioria das pessoas nem sequer sabia que estava sendo travada.


Zero Dark Thirty(EUA, 2012) escrito por Mark Boal , dirigido por Kathryn Bigelow, com Jason Clarke, Jessica Chastain, Kyle Chandler, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Mark Strong, Edgar Ramírez e Joel Edgerton.


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