Yimou Zhang é um diretor chinês que pode se considerar uma influência estética no cinema. Em 1991 já dirigia o lindo Lanternas Vermelhas, uma década depois, na esteira de Ang Lee, ainda emplacou no cinema ocidental os interessantes Herói (com Jet Li) e O Clã das Adagas Voadoras. Mas a grande questão que fica de tudo isso é: com todo esse currículo, como que Zhang conseguiu se meter nessa roubada A Grande Muralha.

Só para se ter uma ideia, o filme estrelado por Matt Damon (ocidental demais, o que não “encaixa”, assim como 47 Ronins) é uma parceria entre China e Hollywood, na verdade o filme mais caro que o país oriental já fez. E todo esse dinheiro foi dado para um roteiro escrito por seis americanos brancos que as vezes não sabem bem o que estão fazendo e já provaram isso.

Carlo Bernard e Doug Miro já se meteram a destruir uma cultura oriental no roteiro de Príncipe da Pérsia, Tony Gilroy já passou tempo demais escrevendo Bourne para os cinemas, Max Brooks… bom, esse não teve culpa de nada e foram outros que estragaram a adaptação de seu livro Guerra Mundial Z. Por fim, Edward Zwick e Marshall Hesrkovitz sabem muito bem como colocar um branquelo para salvar uma cultura oriental, como fizeram em O Último Samurai (Zwick ainda foi o diretor).

E como aquela velha máxima sempre entrega, “muito cacique para pouco índio”. E não consigo nem parafrasear isso envolvendo algum corresponde chinês porque não vale a pena. A Grande Muralha não merece esse esforço.

Mas indo ao filme, Demon e Pedro Pascal são os dois únicos sobreviventes de um grupo de mercenários que partiu em um missão suicida de encontrar “pólvora negra” na China, encher um monte de sacos disso e cavalgar até algum ponto do ocidente onde venderiam isso e ficariam ricos. Um plano que começa idiota por definição, já que, muito provavelmente se conseguissem encher os bolsos do pó, iriam explodir por aí em algum momento. De qualquer jeito, três dos cavaleiros (completamente anônimos), “lutaram muito para escolherem o lugar onde irão morrer”, que nesse caso é entre uma cena e outra, já que são vítimas de uma criatura estranha que os ataca durante a noite.

A Grande Muralha Critica

William e Tovar (Damon e Pascal) então acabam indo parar às porta da famosa Grande Muralha da China, que na verdade foi construída para suplantar os ataques de uma horda de monstros anatomicamente esquisitos, com os olhos (seus pontos fracos) nos ombros. O resto da história você e qualquer um que já tenha visto um punhado de filmes sabe: William se torna um herói, e no final, se balançando em uma corda de modo ridículo salva a China de ser dizimada por essas criaturas.

O desastre é completo e simplesmente todas soluções que o roteiro tenta encaixar soam idiotas e poderiam ser realizadas de modo mais prática de algum jeito mais simples. A começar pelo eixo principal do filme: se você sabe de onde saem essas criaturas e elas demoram 60 anos para fazer isso, por que ao invés de perder esse tempo criando uma muralha, não encheram o buraco delas com pólvora e acenderam um pavio? E se um imã zoa com essas criaturas, por que não amarrar um pedacinho de imã na ponta de cada flecha e atacar a rainha? E por que raios eles acham que “matando a rainha” todas criaturas ao seu redor irão cair?

E falando em flechas, Zwick e toda sua turma já deveriam saber que um herói que faz truques com seu arco e acerta qualquer coisa em qualquer lugar já não interessa mais para ninguém depois do Legolas. Ao invés de tentarem mostrar o quanto ele é bom, poderiam mesmo é terem perdido tempo pensando em meios menos suicidas dos soldados chineses enfrentarem essas criaturas.

Pelo menos, para sorte de todos, Zhang está lá. Firme em suas ideias estéticas, com alguns planos longos interessantes, uma ritmo incrível nas batalhas e o esforço visual de sempre entregar um plano diferente a cada momento, seja mergulhando na muralha ou mostrando a grandeza do cenário. Um esforço que também não consegue segurar a capacidade do roteiro de meter os pés pelas mãos e se deixar levar por um final que desfavorece até mesmo seu trabalho.

Mas depois de tudo isso a pergunta que fica é: Como Zhang e a China caíram nessa armadilha? Será que não teria sido melhor usar sua Grande Muralha para afastar esses gringos vindos Hollywood?


“The Great Wall” (Ch/EUA, 2016), escrito por Carlo Bernard, Doug miro, Tony Gilroy, Max Broooks, Edward Zwick e Marshall Herskovitz, dirigido por Yimou Zhang, com Matt Damon, Tian Jing, Willem Dafoe, Andy Lau, Pedro Pascal e Hanyu Zhang


Trailer – A Grande Muralha

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