por Vinicius Carlos Vieira
28 de fevereiro de 2018

O que se espera do filme de estreia de Aaron Sorkin na cadeira de diretor é exatamente o que se encontra no primeiro de ato de A Grande Jogada. Infelizmente, nem Sorkin parece capaz de aguentar seu ritmo no resto inteiro do filme, o que é uma pena.

Sorkin ficou conhecido por seus diálogos ágeis, prolixos e que pareciam criar um ritmo completamente único. Seus roteiros pareciam assinados por ele e vazavam sua personalidade, isso desde a série West Wing, passando pelos oscarizados por A Rede Social, Steve Jobs e chegando no eloquente Newsroom na HBO.

A Grande Jogada surge então como um Sorkin que lida bem com seus diálogos e ainda sabe aproveitar bem uma montagem moderna e que se diverte com a digressão onde tudo acontece ao mesmo tempo enquanto você é apresentado a Molly Bloom (Jessica Chastain), uma esquiadora americana que fracassa em uma classificatória para a olimpíada e vê sua vida mudar por completo.

Na verdade, Sorkin, como a cartilha desse tipo de filme manda, começa pelo momento em que Bloom é capturada pelo FBI e indiciada por ligação com a máfia russa, o que a leva ao advogado Charles Jaffrey (Idris Elba), que serve de ouvinte para toda história de como a esquiadora (quase olímpica) se tornou a “dona” do maior jogo de pôquer clandestino do mundo.

E não sou eu que digo isso, mas sim a própria Molly Bloom, tanto em sua biografia, quanto durante o filme. A questão é que só por isso o filme já seria interessante o suficiente para manter todos ligados no filme, ainda mais com a enxurrada de imagens, frases de efeito e estilo do primeiro ato. O que até lembra muito o divertidamente à jato A Grande Aposta, a diferença é que ele soube manter esse ritmo até o final, Sorkin não consegue chegar nem na metade.

Nesse primeiro instante, Sorkin contrabalanceia bem o presente com o advogado, calmo e preciso, com o flashback frenético cheio de personagens dúbios, straight flushs, full houses e apostas milionárias. Em um terceiro momento ainda surge Kevin Costner em um outro flashback só para traçar um perfil abusivo (que obviamente irá ser resgatado no final).

O problema é que, aos poucos, isso vai ficando de lado diante apenas da repetição de uma fórmula que dá lugar a um ritmo necessariamente lento e que precisa contar uma história e desenvolver essa personagem. E quando você tem que fazer isso com uma narração literária que teima em não sair de cena, o resultado é só chato.

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Mesmo bem organizado e fácil de acompanhar todas ideias, A Grande Jogada, peca ainda no modo preguiçoso com que a própria Molly Bloom é construída. O que é surpreendente, já que Sorkin é, praticamente, um especialista na hora de criar personagens complexos, profundos e multifacetados.

Sorkin, talvez movido pela biografia escrita pela própria Bloom, parece preocupado demais em traçar esse perfil movido sempre por um código de ética poderoso e uma justiça a toda prova. Tanto que o momento em que “abraça” a contravenção é carregado de um melodrama exagerado e uma tristeza que mal se encaixa no resto do filme.

Isso sem contar uma conclusão que teima em diminuir uma personagem tão interessante e forte a apenas uma mulher perdida e com todos seus passos e decisões sendo influenciados e motivados por algum homem com muito menos personalidade que ela. Desde um chefe mau caráter, até um astro do cinema que se torna um babaca, sem contar, é claro, o pai psicólogo que resolve todos os problemas dela com uma mini sessão no banco de um parque.

Para Molly, fica apenas a impressão de uma mulher que, mesmo diante de todo seu esforço, inteligência e capacidade, física e intelectual, o que sobra para ela é entrar no tribunal sem parecer uma \”versão Cinemax dela mesma\”. Talvez a Molly Bloom precisasse mesmo é que ela fosse a versão dela que ela quisesse, não a que Aaron Sorkin decidisse pelo bem de sua história pouco inspirada, mesmo com um baita material em mãos.


“Molly´s Game” (EUA, 2017), escrito e dirigido por Aaron Sorkin, à partir do livro de Molly Bloom, com Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong e Chris O´Dowd.


Trailer – A Grande Jogada

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