A Garota no Trem | Um thriller sobre mulheres, não garotas

A Garota no Trem Filme

Desde seu lançamento, A Garota no Trem, primeiro livro da britânica Paula Hawkins, conquistou o público e rapidamente passou a ser comparado com Garota Exemplar, o excelente thriller que fez Gillian Flynn estourar e que chegou às telas pelas mãos de David Fincher. Isso encontra respaldo em alguns pontos em comum entre ambas as histórias (personagens femininas complexas e interessantes, uma mulher desaparecida, discussões de gênero), mas cada uma segue seu próprio caminho.

E o de A Garota no Trem é percorrido pelos trilhos que conduzem Rachel Watson (Emily Blunt) diariamente entre Ardsley-on-Hudson e Manhattan. Relembrando com amargura sua vida ao lado do ex-marido em uma casa nos subúrbios às margens dos trilhos, Rachel passa todo o trajeto observando os moradores da região, especialmente o casal aparentemente perfeito formado por dois belos estranhos (Haley Bennett e Luke Evans). Eles moram há duas casas de distância do antigo lar de Rachel, onde seu ex-marido, Tom (Justin Theroux) agora vive com a nova esposa, Anna (Rebecca Ferguson), e a filha bebê dos dois.

Rachel não sabe disto, mas a jovem esposa que tanto aguça sua curiosidade trabalhou brevemente como babá na casa de Tom e Anna. As três mulheres formam o trio central de personagens e, apesar de Rachel ser a protagonista e principal narradora, o roteiro de Erin Cressida Wilson também nos coloca dentro da mente das outras duas. Mas é apenas a partir do desaparecimento de Megan que Rachel percebe o quanto elas estão conectadas.

Enfrentando um problema com a bebida iniciado após tentativas fracassadas de engravidar, a protagonista é solitária, frequentemente agressiva e constantemente patética — de uma maneira que personagens femininas ainda raramente tem a chance de ser. Emily Blunt se entrega com força e talento ao papel, fazendo com que Rachel seja uma personagem envolvente e digna de ter sua história contada. Bennett é carismática, mas o diretor Tate Taylor não sabe navegar bem entre os resultados de sua personalidade inconstante e os reflexos das fantasias de Rachel. Ferguson, por sua vez, transmite bem a prisão suburbana em que Anna vive, mas sobre a qual só começa a realmente refletir à medida que a trama se desenvolve. Evans, Theroux e Édgar Ramírez não fazem feio, mas o holofote é mesmo para o elenco feminino.

A Garota no Trem Crítica

Aliás, um dos pontos mais interessantes de A Garota no Trem é a forma com que o filme retrata a visão misógina dos homens sobre as mulheres, e como suas opiniões sobre uma mulher se transformam em conceitos aplicados ao gênero como um todo. Quando uma mulher chora e berra, ouvimos um “Vocês mulheres suas loucas”; em outra ocasião, para acusar uma personagem, um dos homens exclama: “Vocês são todas mentirosas.” Cada deslize e cada desvio de caráter se transformam em acusações generalizadas, das quais o trio central tem dificuldades de escapar.

Rachel não se envolve com o desaparecimento de Megan por um senso de justiça, mas como forma de se distrair da própria vida. Entretanto, isso logo cede lugar a sua necessidade de limpar seu nome, pois conforme a investigação avança, Rachel torna-se cada vez mais suspeita. Taylor é hábil em retratar a perda de consciência sofrida pela protagonista quando ela bebe demais, transformando-a em uma narradora não-confiável e fazendo com que não saibamos totalmente até que ponto o que ela vê ou conta é verdade.

Entretanto, esse cuidado é abandonado no terceiro ato, quando passamos a receber informações atrás de informações que servem apenas para concluir a trama, sem receber a devida atenção por sua importância na vida dos personagens. Assim, a mudança nas cores do figurino de Rachel em sua última cena não é nada sutil, assim como sua visão do mar com seu clássico simbolismo no cinema.

Mesmo com seus deslizes, que se acumulam até fazer o filme tropeçar em sua conclusão, A Garota no Trem é um interessante thriller escrito (nas telas e nas páginas) por mulheres, protagonizado por mulheres e centrado na visão feminina. Por isso mesmo, é uma pena que tanto esta obra quanto Garota Exemplar sejam exemplos da tendência sexista e infantilizadora de referir-se a mulheres adultas como garotas. Se o protagonista fosse homem, não há possibilidade alguma de que o título fosse “O Garoto no Trem”, não é?


“The Girl on the Train” (EUA, 2016), escrito por Erin Cressida Wilson a partir do livro de Paula Hawkins, dirigido por Tate Taylor, com Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Justin Theroux, Luke Evans, Allison Janney, Édgar Ramírez, Lisa Kudrow e Laura Prepon.


Trailer – A Garota no Trem

Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *