A Freira | Assusta, mas é mais do mesmo

A Feira

Em 2013, Invocação do Mal surgiu como um extremamente eficiente exemplar de um terror clássico e bem construído. O longa acabou dando origem não apenas a uma sequência, lançada três anos depois, mas há um “Universo Estendido” que, com A Freira, alcança um total de cinco filmes. A boa notícia é que esta nova produção é bastante superior aos dois longas centrados na boneca Annabelle — mas, por outro lado, as histórias de Ed e Lorraine Warren permanecem o ápice da franquia.

A personagem-título, que na verdade é um demônio chamado de Valak, deu as caras pela primeira vez em Invocação do Mal 2. Com a popularidade da figura, conhecemos agora a sua história de origem, que tem lugar no início da década de 50 em uma pequena vila no interior da Romênia. Lá, em um recluso convento, o filme começa com alguns de seus momentos mais eficientes, que envolvem uma freira cometendo suicídio para que Valak não consiga possuí-la. Pouco tempo depois, Frenchie (Jonas Bloquet), um franco-canadense que estabeleceu-se na vila e tornou-se responsável por transportar mantimentos até o convento, encontra o corpo da freira. A situação chama a atenção do Vaticano, que encarrega o padre Burke (Demián Bichir) e a noviça Irene (Taissa Farmiga, irmã de Vera Farmiga, que vive Lorraine Warren em Invocação do Mal — as personagens não são relacionadas, mas é um easter egg bonitinho para os fãs) de investigarem o que levou a freira a tirar a própria vida.

Apesar de não fazer referências ao estilo de James Wan, pai da franquia, o diretor Corin Hardy comanda A Freira de maneira elegante e coesa, mas cria momentos que, ainda que esteticamente belos e eficientes, não são particularmente marcantes. Nesse sentido, destacam-se as cenas ambientadas no cemitério do convento, com seus sinistros sinos para que pessoas erroneamente enterradas vivas na época da peste negra pudessem mostrar que estavam vivas, e a sequência que domina a maior parte do terceiro ato e que transforma um espaço do convento em um verdadeiro labirinto repleto de horrores. Entretanto, é uma pena que ela seja plasticamente competente, mas repetitiva e exaustiva em termos da ação que se desenrola na tela.

Esse é, aliás, um dos maiores problema de A Freira. Depois de um primeiro ato que estabelece a história, os personagens e a atmosfera da obra com excelência e que realmente envolve o espectador, o segundo e principalmente o terceiro ato entregam-se a situações bastante similares, o que desacelera até praticamente estancar o ritmo do longa. Isso acontece principalmente pelo fato de que o roteirista Gary Dauberman (roteirista de Annabelle e sua sequência e de ambas as partes de It: A Coisa, escrevendo a partir de uma história concebida por ele e por Wan, tem em mãos apenas alguns fiapos de narrativa que ele costura em meio a algumas cenas de susto mas que, em última instância, chegam a um ponto do qual parecem não poder ultrapassar.

A Freira

O terceiro ato, então, torna-se quase que uma busca desenfreada por um McGuffin que contém literalmente o sangue de Jesus Cristo, necessário para que Valak possa ser aprisionado de vez (ou, pelo menos, até que Ed e Lorraine deparem com ele vinte anos mais tarde). Enquanto isso, se os sustos mais explícitos vão pouco além de um batido jump scare, Hardy consegue construir uma boa atmosfera de tensão, aproveitando-se do cenário sinistro e da bela fotografia de Maxime Alexandre e seu ótimo uso da escuridão, das sombras e, ocasionalmente, de pontos mais fortes de luz. E se Demián Bichir faz um trabalho competente com um personagem bastante tradicional, Taissa Farmiga tem a oportunidade um pouco mais complexa de explorar a natureza da fé de Irene. Nesse sentido, funciona também a maneira com que Dauberman retrata a burocracia da Igreja Católica e o fato de que seus personagens fiéis, muitas vezes, precisam quebrar as regras para fazer o que é certo — abordagem herdada de Wan. Para finalizar o trio, Jonas Bloquet diverte na pele do irreverente e amedrontado Frenchie, mas sua missão de ser o alívio cômico do longa acaba por tornar-se uma distração depois do primeiro ato.

Então, por enquanto, as obras principais da franquia Invocação do Mal permanecem soberanas ao lado de spin-offs que, mesmo estando gradativamente melhorando, insistem em contar demais sobre personagens que funcionam melhor como coadjuvantes. Entretanto, pelo menos no que se refere à técnica, A Freira conta com uma direção competente e com uma fotografia inteligente que veem-se obrigados a servir uma trama rasa que arrasta-se ao longo de pouco mais de 1h30 depois de uma introdução promissora.


“The Nun” (EUA, 2018), escrito por Gary Dauberman, dirigido por Corin Hardy, com Taissa Farmiga, Demián Bichir, Jonas Bloquet, Bonnie Aarons, Ingrid Bisu, Charlotte Hope, Sandra Teles, Lynnette Gaza, Ani Sava e Michael Smiley.


Trailer – A Freira

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