por Mariana González
01 de fevereiro de 2018

A Forma da Água é uma fábula que, tirando alguns diálogos e cenas calcados na sexualidade, não ficaria muito deslocada se estivesse no catálogo de animações da Disney. E isso é um enorme elogio.

A nova obra de Guillermo del Toro, afinal, pode ser descrita como um encontro inesperado entre O Monstro da Lagoa Negra e A Bela e a Fera. Da fotografia à trilha sonora, passando pelo trabalho fabuloso do elenco comandado por Sally Hawkins, este conto de fadas é mais uma amostra da genialidade de del Toro e do quanto a paixão e a sensibilidade do realizador têm a contribuir para o cinema de gênero.

Elisa Esposito (Sally Hawkins) trabalha como zeladora em um laboratório ultrassecreto que fica “perto do litoral e longe de todo o resto”. Seus únicos amigos são a colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer) e o vizinho Giles (Richard Jenkins). Eles também são as únicas pessoas com quem vemos Elisa, que é muda, comunicando-se livremente por meio da linguagem de sinais. Certa noite, o ameaçador Coronel Richard Strikland (Michael Shannon) chega ao laboratório com uma misteriosa criatura capturada em um rio na América do Sul. Logo, a curiosidade de Elisa leva-a a tentar conhecê-lo e, depois, a encantar-se pelo humanoide aquático (Doug Jones). Quando Elisa decide resgatá-lo do laboratório e levá-lo para o oceano com a ajuda do Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), ela e a criatura se apaixonam.

E desde que abre sua história com uma narração em off embalada por acordes delicadamente fantasiosos, A Forma da Água assume sua condição de fábula. Isso é fundamental para que mergulhemos nesse mundo fantástico criado por del Toro e sua equipe, já que, além de centrar-se em um romance entre uma mulher e um “monstro”, os próprios personagens e narrativa também operam dentro das regras de um conto de fadas. O melhor exemplo disso é o antagonista vivido por Michael Shannon, que é um Vilão (com V maiúsculo mesmo) a quem só falta um bigode para ser contorcido maliciosamente — del Toro troca-o por um par de dedos feridos que se recusam a sarar e, finalmente, apodrecem. Shannon abraça essa podridão e maldade de seu personagem de forma louvável e, ainda, divertida.

Mas, como esta é uma história adulta, Strikland ganha também uma dose forte de machismo: o que o atrai à mocinha é o fato de ela ser muda e, portanto (na visão dele), quieta, dócil e submissa. Del Toro e sua co-roteirista Vanessa Taylor são espertos o bastante para entender o quanto essa imagem é não apenas falsa, mas perigosa.

Entretanto, tudo tem um ponto fraco, e nesse caso, esse posto fica com a subtrama envolvendo os russos. O arco dramático percorrido pelo cientista vivido por Michael Stuhlbarg é interessante, e del Toro evita abraçar uma moralidade preta e branca que nunca fez parte de seus filmes, mas mesmo assim, os demais personagens desse núcleo participam das cenas menos interessantes da obra.

Enquanto isso, Zelda e Giles, mesmo que tendo a função principal de atuar em favor da “moral da história”, também se estabelecem como personagens interessantes e carismáticos — algo que deve muito, é claro, ao excelente trabalho de Octavia Spencer e Richard Jenkins.

Spencer imprime humanidade e exaustão a seus diálogos — ela é a personagem que mais ouvimos falar no filme, algo nascido do fato de que Elisa é a única pessoa com quem ela pode realmente desabafar. Assim, além de servir como ombro amigo e intérprete da colega, Zelda também simboliza a mediocridade que um “casamento tradicional” pode representar, e há espaço ainda para que o longa discuta o racismo dos Estados Unidos na época da Guerra Fria (não que tanta coisa assim tenha mudado).

Da mesma forma, Jenkins é o companheiro de Elisa no que diz respeito à sua paixão pela arte, especialmente pelo cinema enquanto forma de expressão. É por meio dos filmes que assistem na televisão (e, ocasionalmente, no cinema em cima do qual moram) que Elisa e Giles dão vazão a seus sonhos, medos, sentimentos e paixões. Além disso, o fato de Giles ser gay e de esconder isso torna-o uma representação do arrependimento que espera Elisa em seu futuro caso ela não siga seu coração no que diz respeito à criatura que ama. Além, é claro, do preconceito sofrido por quem ousa desviar-se do status quo.

A Forma da Água Filme

E como toda boa fábula, A Forma da Água também traz uma significativa — e, aqui, sutil — mudança de vestuário. Durante a maior parte da projeção, Elisa veste-se nos tons de verde utilizados pela equipe de limpeza (e que também dominam a fotografia); o uniforme é acompanhado de tiara e sapatos pretos. Depois de um ponto importante em seu relacionamento com o humanoide, a tiara e os acessórios — e, mais tarde, o casaco — passam a ser vermelhos, cor que simboliza, é claro, a paixão. Os figurinos criados por Luis Sequeira, assim, merecem aplausos pelo esmero com que não apenas recriam a década de 40, mas também com que dão vida à imaginação de del Toro.

O mesmo vale para o design de produção comandado por Paul D. Austerberry. O laboratório parece um submundo próprio, enquanto os apartamentos de Elisa e de Giles transbordam com a personalidade de seus moradores — há, ainda, um contraste gigantesco entre a atmosfera fria e sufocante do laboratório e a liberdade, aconchego e conforto representado pelos lares dos personagens. Enquanto isso, a trilha sonora composta por Alexandre Desplat aproveita ao máximo a chance de guiar a narrativa com temas fantásticos, mas que, mesmo assim, sabem que os acontecimentos devem nos tocar por si só.

Finalmente, a magnífica fotografia de Dan Laustsen, baseada em tons de verde e de azul, inicialmente parece nos prender naquele espaço opressor do laboratório. Entretanto, depois que conhecemos a criatura, essas mesmas cores parecem nos transportar para o mundo dele, que se torna também o de Elisa. Além disso, os leves toques de luz vermelha e laranja que passam a invadir o mundo melancólico de Elisa rendem imagens belíssimas e tocantes.

E é impossível deixar de destacar o impecável trabalho que trouxe a criatura à vida: à performance sensível de Doug Jones, soma-se uma maquiagem sensacional, capaz de permitir que o humanoide se expresse de maneira ameaçadora, delicada, curiosa, ingênua, etc., o que o transforma em um personagem fascinante.

Guiando tudo isso, é claro, está Guillermo del Toro. O diretor mexicano faz então de A Forma da Água um filme orgulhosamente fantasioso e romântico — vide a belíssima sequência musical; não é à toa que a protagonista é apaixonada pelo cinema e pelo poder que ele possui de dar vazão a nossos sentimentos de maneira totalmente livre. Entretanto, o cineasta faz isso repleto de qualquer cinismo.

A Forma da Água é um estudo sobre a solidão e os sonhos de sua protagonista, além de estabelecer-se como um ode à curiosidade e à magia. O que temos aqui, portanto, é pura paixão e encantamento.


“The Shape of Water” (EUA, 2017), escrito por Guillermo del Toro e Vanessa Taylor, dirigido por Guillermo del Toro, com Sally Hawkins, Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy, Lauren Lee Smith, Martin Roach e Allegra Fulton.


Trailer – A Forma da Água

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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