França e Estados Unidos sempre tiveram uma relação próxima, e tudo deve ter começado com os “amantes de baguetes” ajudando os yankees a se tornarem independentes em 1783. Depois disso, os Estados Unidos os libertaram das mãos de Hitler, e até batizaram suas batatas fritas de “francesas” (french fries), em contrapartida, Truffault e seus amigos da Cashiers du Cinema foram os primeiros a “descobrir” o gênio Alfred Hitchcock (…que na verdade era inglês, mas isso é um detalhe irrelevante). A Família, então, é apenas um detalhe mais recente desse caso de amor.

Um detalhe, mas que faz dele, provavelmente, a melhor “comédia franco-americano de máfia” dos últimos tempos (ainda que tenha poucos adversários nessa briga). E umas das grandes surpresas disso é a presença de Luc Besson no comando desse filme que foge completamente de seu estilo e mostra que, mesmo se afogando em péssimas e pouco ousadas tentativas nos últimos mais de dez anos de filmografia (desde seu presunçoso Joana D´Arc), acaba mostrando que ainda pode ter fôlego para que seu nome volte a ser lembrado.

Besson (que se você ainda não ligou o nome à pessoa, foi diretor do amalucado Subway, do genial O Profissional e dos divertidos Nikita e O Quinto Elemento) parte então para contar a história de uma tal família Blake que acaba indo parar no meio da Normandia e precisa se acostumar com vida pacata dessa espécie de “lugar nenhum”. O problema é que, na verdade, os Blake são os Manzoni, e o líder Fred, ou Giovanni (Robert De Niro), é um ex-mafioso de Nova York que dedurou sua “famiglia” e agora está “preso” ao “famoso” Serviço de Proteção a Testemunhas.

E os acertos de A Família começam ai, já que o ótimo roteiro de Michael Cale, em parceria com o próprio Besson (adaptados do best seller de Tonino Benacquista), joga no lixo qualquer esquema engessado de Hollywood e parte para fazer algo que a “massa de espectadores genéricos” chamaria de “filminho francês”. Não existe esforço algum de mastigar a trama para ninguém, e durante quase a metade inicial do filme todos no cinema terão o prazer de pensar.

Isso mesmo, “pensar”, ligar várias pequenas informações, situações, personagens e dicas para entender quem são aquelas pessoas completamente malucas. A Família não começa com um chato e alongado diálogo expositivo para posicionar o espectador antes de contar para ele que o filho mais novo (John D´Leo, que ganha uma pinta e fica a cara do De Niro) é mais maquiavélico que um vilão de história em quadrinhos, que a filha (Dianne Agron, que o IMDB me disse que é estrela da série Glee) é uma psicopata e que a mãe (Michelle Pfeiffer) tem um leve problema de temperamento. Tudo isso enquanto o pai continua de pijama sem poder sair da propriedade (ordens do FBI, que surge na imagem do sempre “bem humorado” Tommy Lee Jones).

E ainda que, no final das contas, A Família rume para o final esperado onde eles precisam sobreviver à investida de um assassino profissional que descobre seu paradeiro, graças a uma divertidíssima sequencia que coloca aquele pequeno povoado e o presídio de Attica (em NY) a “uma página de jornal” de distância, Besson e Cale estão muito mais preocupados em contar essas divertidas histórias que resumem a estadia da Família Blake naquele lugar. E isso faz com que o cinema inteiro se apaixone, emocione, ria e torça (no final), para essa família. E o melhor: tudo isso com a impressão de que está tendo sua inteligência respeitada como em poucas comédias atuais (numero que deve chegar perto do zero).

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Mas a cereja do bolo de A Família é mesmo o quanto ele não se leva a sério e tem a certeza de estar fazendo um “filme de máfia” com um dos ícones do gênero. E se você pensou “mas o De Niro que eu conheço nunca seria um rat”, eles tanto sabem disso que em uma deliciosa sequencia colocam o personagem para ver e comentar um tal de Os Bons Companheiros, que tem como ponto de partida, justamente, Ray Lyota dando com a língua nos dentes (e se isso foi o spoiler para você… bom devia ver mais filmes). Besson ainda permite que seu protagonista seja conhecido pela esposa por “acabar com todos os ratos” de cada casa que se mudam, como se nem ele aceitasse sua natureza. Isso e mais uma série de refrescantes referências que são um deleite para quem se deixar levar.

Voltando ao lado “filminho francês”/inteligente, também não espere um discurso melancólico e triste enumerando as razões de ter colocado todos seus parceiros na cadeia durante nenhum momento do filme, mas sim uma narração (que se mistura a uma autobiografia sendo escrita) que quer mais é mascarar e deixar muito mais leve uma vida que qualquer mafioso de Nova York teria orgulho, e o tom irônico com que Besson brinda essas narrativas (procurando a verdade das imagens, e não a beleza das palavras) é o mesmo tom que conquista todos em A Família: debochado e despreocupado.

Tudo isso, toda essa vontade de ser diferente e interessante, ainda ganha a companhia de um momento estético de Luc Besson que parece novamente em busca daquela plasticidade objetiva que marcou seu começo de carreira. Que não enrola e sabe exatamente o que quer mostrar, mas ao mesmo tempo tem a sensibilidade de colocar o filho “encontrando a morte” em uma estação de trem e procurar os olhos cheios de lagrimas que desconstroem e dão uma profundidade singular ao personagem (e consequentemente ao resto de sua família). Forma e estilo juntos e acrescentando o adjetivo “imperdível” ao filme.

Mais uma prova de que, por mais que ambos peguem um no pé do outro, a versão francesa desses “tais de americanos que acham que por que salvaram a Segunda Guerra podem fazer o que quiserem”, comedores de pasta de amendoim e “wiseguys” resulta em uma comédia deliciosa, com um elenco sensacional, um diretor no melhor de seus momentos e (me contradizendo) muito mais que apenas um detalhe dentro do que chegou aos cinemas em 2013.


Malavita (EUA/Fra, 2013), escrito por Luc Besson, Michael Caelo e Tonino Benacquista (livro), dirigido por Luc Besson, com Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Dianna Agron, John D´Leo e Tommy Lee Jones.


Trailer do Filme A Família

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Uma resposta

  1. Olivia Cruz

    Gostei muito ese filme, acho que ele é perfeito pelo personagem de gángster. Também adorei assistir o Robert De Niro em este personagem, ele fez um excelente trabalho em tudos seus filmes. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Particularmente [Link substituído pelo Editor. PS: HBO, se quiser fazer propaganda, procura nosso setor comercial] Hands of Stone, adorei este filme. A história é impactante, sempre falei que a realidade supera a ficção. Edgar Ramírez é um ator que as garotas amam por que é lindo, carismático e talentoso.

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