A Espiã Vermelha | Política, conspiração, romance, ciência… não necessariamente nessa ordem


Política, conspiração, romance, ciência. A Espiã Vermelha é um filme que contém esses elementos unidos por uma mulher vivendo seu sonho de ser uma cientista em plena Segunda Guerra, mas ao mesmo tempo sendo pressionada por seus valores e sua posição privilegiada a fazer algo que ela poderá se arrepender profundamente. A questão toda do filme é que ela não tem como saber disso naquele momento, e, sendo finalmente descoberta, tem a chance de rever suas ações.

Portanto o roteiro de Lindsay Shapero, inspirada no romance de Jennie Rooney, constrói essa trama alternando entre o presente e o passado. Começamos o filme com Joan sendo intimada pela justiça britânica em um julgamento por traição por seus atos cometidos na época da guerra. Ela é Judi Dench, desperdiçada, pois tem muito pouco tempo de tela e menos diálogos ainda, sendo muito difícil se conectar com o que essa mulher, já muito idosa, está sentindo a respeito de tudo isso.

Para conseguirmos entender Joan a história se passa na maior parte do tempo no passado, onde ela é interpretada por Sophie Cookson (Kingsman). Ela é uma moça que largou a vida convencional das mulheres da época para estudar ciências exatas na Universidade de Cambridge. Lá ela conhece a extrovertida Sonya (Tereza Srbova) e seu amigo Leo (Tom Hughes), por quem se interessa automaticamente. Ele é alto, bonito e persuasivo em seus discursos. É o principal agitador do grupo de comunistas que participa, e isso em uma época pós-revolução soviética pode lhe trazer vários problemas.

Joan é uma garota convicta de seus valores patrióticos, adora trabalhar com ciência e arruma um emprego no projeto britânico para descobrir a forma de produzir a bomba atômica. Ela assina um termo de confidencialidade e se mantém convicta, apesar da insistência de Leo, que magicamente sempre sabe sobre ela e quer compartilhar o resultado das pesquisas com seus camaradas. Porém, se Leo logo no começo, durante um discurso contra a ditadura espanhola, soa convincente, ele perde tudo isso nas irregulares visitas a Joan, o que faz toda aquela situação soar muito estranha, já que a personagem conduzida por Cookson não nos deixa enxergar esse conflito.

Esta história é um beco sem saída: tanto a Joan do passado quanto a do presente não nos dão informações sobre quem ela verdadeiramente é, mas a história vai se desenrolando mesmo assim com esses três temas principais – ciência, política, romance – de maneira burocrática, simplesmente narrando eventos que podem ter acontecido com a “verdadeira” Joan, a espiã Melita Norwood, mas nunca se preocupando em desenvolvê-la como um ser humano.

Do ponto de vista político A Espiã Vermelha é um fiapo de história, que não utiliza o precioso momento de tensão entre os países aliados, preferindo falas vagas de pessoas ligeiramente envolvidas. Até o manipulador O Jogo da Imitação se sai muito melhor nesse quesito. Já do ponto de vista científico este é apenas um pano de fundo mal lavado da história, pois não existem detalhes suficiente que instiguem o espectador, mesmo o leigo, a se debruçar sobre os verdadeiros milagres – moral colocada de lado – na física atômica.

E, por fim, do ponto de vista do romance, este é basicamente um novelão. Acompanhamos Joan e as visitas irregulares de Leo e sua entrega ou não-entrega física, ou dos dados que Leo tanto quer. Em paralelo também acompanhamos o interesse amoroso de seu chefe Max (Stephen Campbell Moore), que coordena todo o projeto e vai desenvolvendo aos poucos o problema de tentar se divorciar de sua atual esposa para viver com Joan. E Sonya, em suas participações igualmente irregulares, possui uma reviravolta tão desbaratinada que quando descobrimos resta apenas haver alguma gravidez no meio da história para ela ganhar o selo novela britânica de curta duração.

Mas não me leve a mal, este é um filme com temas interessantes e uma personagem idem. Eu até gostaria de ter visto mais sobre esses assuntos que giram em torno da figura de Joan, se infelizmente essa não fosse, como ela mesmo se coloca, “uma sombra em meio aos homens”.

A Espiã Vermelha  tristemente parece a colocar na mesma situação do passado, não fazendo jus à possível homenagem que poderia ter sido feito pelas suas, se não nobres, bem-intencionadas ações da época.


“Red Joan” (UK, 2018), escrito por Lindsay Shapero, dirigido por Trevor Nunn, com Judi Dench, Sophie Cookson, Stephen Campbell Moore, Tom Hughes, Tereza Srbova.


Trailer do Filme – A Espiã Vermelha

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