A Camareira | Menos representativo do que acha ser


A Camareira é um filme lento sobre uma pessoa lenta que nem sabe o próprio signo. O objetivo é termos dó dessa criatura, devagar no raciocínio, mas muito caprichosa, embora com movimentos de um zumbi, que vai aos poucos aprendendo que ser competente apenas beneficia aos outros. O drama surge na banalidade das ações do dia a dia, e essa banalidade contamina o próprio filme, pois ele aos poucos, em vez de se tornar relevante, se torna esquecível.

Evelia é a protagonista absoluta. Tudo gira em torno dessa pessoa dedicada e atenciosa que quase não percebemos que está desesperada. Com movimentos sutis ela vai ganhando a vida de forma dura, trabalhando quase todo o tempo como camareira de um hotel chique na Cidade do México cujos clientes são impessoais e rudes.

Ela precisa limpar mais quartos para, com a renda extra, poder manter seu filho. Por isso a vemos o tempo todo dentro do hotel e de uniforme para termos a sensação de uma carga de trabalho tão pesada que ela já se esqueceu que é um ser humano. Mas Evelia é um ser humano, e como todo mundo possui desejos para si, como ser desejada, pegar um vestido vermelho nos Achados e Perdidos e ganhar o andar mais luxuoso para limpar.

Enquanto vamos desvendando a rotina dos funcionários do hotel através dos olhos da diretora Lila Avilés vamos montando nós mesmos esse microcosmos de onde nunca saímos. Os empregados são igualmente impessoais entre si, cumprindo ordens que fazem parte do sistema de funcionamento do hotel. Muitos tentam fazer um dinheiro extra no horário de trabalho vendendo comida e potes de plástico para os próprios colegas, e a familiar troca de favores entre faxineiras para cobrir os imprevistos. A rotina é estabelecida em torno do elevador, que leva Evelia para cima e para baixo em uma marcação de tempo que parece nunca passar.

Sem qualquer diálogo expositivo e muitos momentos em que simplesmente a vemos trabalhar, A Camareira é quase um zoológico cinematográfico para classes privilegiadas que assistem “filme de arte”, e para os que sempre quiseram observar o habitat natural dessa profissão de limpar os quartos antes e depois de serem usados. Isso até entretém por um tempo, mas depois a história precisa ser desenvolvida para não cairmos no sono.

Isso não é falha da atriz estreante, Gabriela Cartol, pois ela executa passos precisos de sua personagem. Sem espaço para se expressar exceto nos poucos momentos em que ela desvia de suas funções ou as faz com alguma pequena diferença, o papel de Cartol é ser uma boneca orquestrada por movimentos de câmera dissonantes em busca de alguma compreensão desse universo do filme.

A direção de Avilés usa essa câmera intimista, subjetiva, sempre caminhando atrás e ao lado da jovem Evelia. A câmera na mão tem dupla função, pois além de nos aproximar da protagonista nos dá a noção do tempo real e imediato de suas ações, que parece nunca terminar. Colabora também não existirem janelas onde os funcionários trabalham, e mesmo nos quartos dos hóspedes os vidros das janelas disfarçam bem o período do dia, ressaltando a impressão de o tempo não passar, mas sim girar em ciclos infinitos.

Um filme ideal para os críticos de cinema realizarem algum discurso sobre o drama social dos mais vulneráveis, embora a história não seja condescendente nesse nível. No entanto, há detalhes sórdidos manipuladores, disponíveis para os que estão cansados desse canto pelo pobre repetitivo e incessante poderem desmascarar a narrativa.

Evelia come pouco no refeitório para economizar tempo e dinheiro, mas o filme cai naquelas contradições da vida real, onde uma jovem de 24 anos que trabalha como uma condenada e come muito pouco não se torna fraca e magra. Mas mantém uma disposição incompreensível, e podemos também notar isso em um momento onde ela explora seu próprio corpo, robusto e sadio, que a narrativa não condiz tão bem com a realidade.

A Camareira quer nos impressionar, mas sem o esforço do elenco e produção. É uma experiência minimalista de um discurso fácil de replicar na ficção, mas difícil de se tornar o estado da arte que sugere ser.


“La camarista” (Mex, 2018), escrito por Lila Avilés e Juan Márquez, dirigido por Lila Avilés, com Gabriela Cartol, Agustina Quinci e Teresa Sánchez.


Trailer do Filme – A Camareira

Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *