Filmes religiosos têm a complicada missão de transmitir sua mensagem de fé sem “alienar” os espectadores de fora da religião. Essa missão, entretanto, raramente é cumprida, e esse é definitivamente o caso de A Cabana. Para piorar, mesmo ignorando o envolvimento ou não do público com suas temáticas, o longa é uma produção repleta de problemas dignos de um filme feito para a televisão, mesmo tentando criar uma experiência intensa e marcante.

Mack (Sam Worthington) e Nan Phillips (Rhada Mitchell) são pais dos jovens Kate (Megan Charpentier) e Josh (Gage Munroe) e da pequena Missy (Amélie Eve). Em um fim de semana, Mack leva os três filhos para acampar e, pouco antes de retornarem, Missy desaparece. A polícia logo declara que, na região, há um homem suspeito de ter sequestrado outras cinco garotas. Não demora muito para que o vestido da menina seja encontrado em uma cabana, acabando de vez com as esperanças da família.

Anos depois, o peso da morte de Missy continua assombrando a família. Até que Mack encontra um bilhete misterioso em sua caixa de correio: um convite para que ele retorne à cabana, assinado por “Papa” — apelido de sua esposa para Deus. Depois de conversar com o pastor Willie (Tim McGraw), que narra o longa, Mack decide aceitar o convite. Ao chegar à cabana, ele logo encontra um verdadeiro paraíso na Terra e a casa idílica onde vive Deus, manifestado na forma da Santíssima Trindade do Cristianismo: o Pai (Octavia Spencer), o Filho (Avraham Aviv Alush) e o Espírito Santo (Sumire Matsubara). Seu objetivo é fazer com que Mack supere a morte da filha e aceite Deus em seu coração, algo que nunca foi tão fácil para ele quanto é para Nan, sua esposa.

O roteiro escrito por John Fusco, Andrew Lanham e Destin Cretton a partir do livro homônimo de William P. Young (que, desde seu lançamento em 2009, estabeleceu-se como fenômeno do gênero) apresenta sérios problemas de estrutura. Para começar, na cabana, o filme tenta estabelecer o quanto Mack sempre teve dificuldades para estabelecer um relacionamento com Deus, quando até então parecia que sua devoção existia, mas apenas não era tão grande quanto a da esposa. Talvez, é claro, esse relacionamento casual não seja o suficiente.

De qualquer forma, a relação entre o protagonista e seu pai, que seria a causa desse distanciamento de Deus, é outro elemento tratado sem cuidado algum. O pai de Mack batia na esposa e, ocasionalmente, também no menino, deixando o garoto desesperado, com ódio do pai e sem saber o que fazer para proteger a mãe. Entretanto, Deus arquiteta um encontro de Mack com o espírito (?) de seu pai, e a conversa entre os dois termina com o pai perdoando o filho por ele não ter sido capaz de fazer nada contra sua violência. Que tipo de mensagem é essa?

Mas a verdade é que A Cabana está interessado em apenas uma lição: Deus é infinitamente bom. Mack tem, compreensivelmente, muita dificuldade em entender como Deus pode declarar seu amor pelos seres humanos e, ao mesmo tempo, permitir que uma garota inocente como Missy seja destruída por alguém puramente mal. E como esse alguém puramente mal pode ser perdoado e ir para o Céu?

A Cabana Filme

Para ilustrar essa situação, Alice Braga surge como a personificação da sabedoria divina, fazendo com que Mack coloque-se no lugar de Deus e tenha que tomar uma decisão: qual de seus filhos ele mandaria para o Inferno? Kate, que se fechou para o pai após a morte da irmã, ou Josh, que anda mentindo para o pai e dando mais atenção à namorada do que à escola? Sim, aparentemente, esses “pecados” são equivalentes a assassinar cinco garotinhas, e a incapacidade de Mack de tomar uma decisão (óbvio) aparentemente o ensina a entender o julgamento de Deus em perdoar os pecadores.

Não há complexidade alguma na maneira com que o roteiro apresenta e soluciona seus conflitos; não há espaço para tons de cinza. A forma com que Mack se transforma depois de sua estadia na cabana chega a ser ofensiva para pessoas lidando com a perda de um ente querido. Talvez o Cristianismo seja pré-requisito para se envolver com a mensagem de A Cabana, mas isso não é desculpa para a forma truncada com que o filme a transmite.

De qualquer forma, não há o que perdoe a atuação completamente sem energia de Sam Worthington ou a direção digna da telinha de Stuart Hazeldine. Assim, Octavia Spencer não tem dificuldade alguma em comandar a produção, surgindo confiante, calorosa e sábia em seu papel. Enquanto isso, Avraham Aviv Alush e Sumire Matsubara também são carismáticos, mas pouco têm a fazer. De qualquer forma, o filme acertadamente escala um ator do Oriente Médio para interpretar Jesus, algo que vem se mostrando cada vez mais comum. Aliás, a diversidade representada pela Santíssima Trindade (uma mulher negra como Deus, um israelense como Jesus e uma japonesa como o Espírito Santo) é a maior qualidade do filme.

Portanto, quem está entre os milhões de fãs do livro A Cabana provavelmente gostará desta adaptação. Afinal, a produção se importa mais em transmitir suas lições cristãs de forma pouco complexa do que em criar uma experiência cinematográfica minimamente memorável.


“The Shack” (EUA, 2017), escrito por John Fusco, Andrew Lanham e Destin Cretton a partir do livro de William P. Young, dirigido por Stuart Hazeldine, com Sam Worthington, Octavia Spencer, Avraham Aviv Alush, Sumire Matsubara, Tim McGraw, Alice Braga, Radha Mitchell, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve e Graham Greene.


Trailer – A Cabana

2 Respostas

  1. Mariana González

    Não. Mack matou o pai, mas o perdão é por ele “não ter conseguido fazer nada”, quando essa responsabilidade nunca foi dele. A forma com que o diálogo entre os dois é escrito deixa isso bem claro, quando deveria focar em Mack perdoando o próprio pai como parte de sua jornada espiritual na cabana.

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  2. Anônimo

    O pai perdoou o filho por mata lo, adulterando a bebida que ele consumia com estriquinina.

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