O conto de fadas atribuído a Jeanne-Marie Leprince de Beaumont chegou aos cinemas pela primeira vez nas mãos de Jean Cocteau em 1946. Décadas depois, em 1991, a Disney apresentou ao mundo a história de A Bela e a Fera com o longa-metragem de animação que, agora, ganha esta reimaginação ­live-action.

Afinal, o estúdio quer aproveitar ao máximo o pote de ouro descoberto em 2010 com o Alice no País das Maravilhas de Tim Burton. A boa notícia é que, apesar de seguir a fórmula da animação original, esta refilmagem é eficiente o bastante para, com seus pontuais elementos inéditos, estabelecer-se como obra própria e justificar sua existência para além do simples retorno financeiro.

Você conhece a história: um jovem e arrogante príncipe nega refúgio a uma senhora que, então, revela ser uma feiticeira. Para ensinar uma lição ao rapaz, ela o transforma em uma Fera, enquanto todos os criados do castelo tornam-se objetos. O feitiço só poderá ser quebrado se, antes que a última pétala da rosa encantada caia, a Fera se apaixone e conquiste o amor verdadeiro de alguém.

Alguns anos depois, a jovem Bela (Emma Watson) sonha com uma vida longe do confinamento da pequena cidade do interior da França, Villeneuve (o nome é uma homenagem a Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, primeira pessoa a contar esta história), em que mora com seu pai, o artista Maurice (Kevin Kline). Independente e inteligente, Bela é uma leitora voraz que, com sua beleza e espírito forte, conquistou o interesse do arrogante e estúpido Gaston (Luke Evans). Até que Maurice rouba uma rosa no jardim do castelo da Fera e, então, é aprisionado por ele. Para salvar o pai, Bela toma seu lugar como prisioneira da Fera, mas logo começa a ver surgir uma conexão verdadeira entre os dois. Os criados e a própria Fera passam a nutrir a esperança de quebrar o feitiço que os aprisiona, enquanto Bela se divide entre seus crescentes sentimentos pelo príncipe amaldiçoado, seu desejo pela liberdade e o anseio por proteger o pai.

O diretor Bill Condon e os roteiristas Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos conseguem recapturar os elementos que eternizaram a obra que, em 1992, tornou-se a primeira animação a concorrer à categoria de melhor filme no Oscar. Assim, Emma Watson e Dan Stevens se saem muito bem na missão de estabelecer a dinâmica entre Bela e a Fera, algo fundamental para que a história funcione. Watson continua com a tendência ao overacting demonstrada já em Harry Potter, mas imprime carisma, inteligência e individualidade à protagonista. Stevens, por sua vez, se mostra expressivo e envolvente por trás da maquiagem digital utilizada para criar a Fera — e a cena inicial, que o traz ainda como o esnobe príncipe, também merece destaque.

A magia que dá vida ao castelo também é retratada com talento pelos efeitos especiais impecáveis da Disney, mesmo que os traços humanos nos objetos surjam bem mais perturbadores em um contexto live-action do que na animação. O mesmo, vale dizer, poderia acontecer com a ideia de um romance entre uma garota e uma criatura com a aparência da Fera, mas o roteiro sutilmente acrescenta alguns pontos para aliviar esse estranhamento. Da mesma maneira, os quase quarenta minutos extras de filme permitem explorar mais a aproximação entre o casal. Assim, a clássica cena em que a Fera presenteia Bela com sua fascinante biblioteca ganha um novo contexto, que funciona muito bem nesta versão e que imprime certa domesticidade e conforto ao relacionamento.

A falecida mãe de Bela também ganha mais destaque, algo que não apenas traz novas dimensões à garota como também reforça seus laços com o pai.  Por outro lado, isso nos leva à mãe do príncipe que, em uma tentativa dos cineastas de criar um paralelo descartável entre a infância dos dois, acaba funcionando como forma de justificar o comportamento detestável dele com uma história triste.

A extensão da obra também dá espaço para duas novas músicas compostas por Alan Menken, que jamais chegam aos pés das canções originais. Estas, por sua vez, são apresentadas aqui com vivacidade e energia, funcionando por si mesmas. A experiência de Condon com musicais (ele escreveu o roteiro de Chicago e dirigiu Dreamgirls, além de ter comandado uma versão de Side Show na Broadway) dá ao diretor segurança total para reconstruir os números musicais com imenso talento. Os objetos e cenários compõem padrões envolventes, os personagens movem-se pelo cenário de maneira certeira e a câmera participa ativamente da coreografia, algo perceptível especialmente em “Be Our Guest”.

A Bela e a Fera Crítica

Por outro lado, todo esse talento não alcança as sequências de ação, que são dirigidas e montadas de maneira pouco imaginativa e sem a intenção de destacar elementos importantes para uma melhor compreensão do contexto. Assim, a ação acaba existindo simplesmente como meio para alcançar um resultado determinado, esse sim importante. Consequentemente, essas cenas enfraquecem a produção.

Outro momento-chave é a dança entre Bela e Fera embalada pela marcante canção-título, e Condon recria a magia dessa cena que também é conduzida pela já citada ótima química entre Watson e Stevens. Mas, é claro, não podemos deixar de citar a bela versão de “Beauty and the Beast” cantada por Emma Thompson, que tem a difícil missão de substituir Angela Lansbury. Entretanto, um elemento que chega muito perto de não funcionar aqui é o icônico vestido de Bela. Condon acerta em cheio ao adiar a revelação do traje, reconhecendo justamente a importância desse momento. Mas, por mais que a figurinista Jacqueline Durran faça um trabalho impecável com o vestuário da Fera, o vestido amarelo é certamente belo, mas jamais chega perto de capturar o deslumbramento causado pelo desenho original.

Mais de 25 anos após a animação, é claro, A Bela e a Fera ganha toques específicos para tornar-se mais moderno. Assim, se Bela já havia se destacado no original por ser independente, capaz e intelectual, ela agora inventa uma máquina de lavar que permite que ela dedique esse tempo à leitura e, além disso, tenta ensinar outras garotas da vila a ler. Além de enriquecer a caracterização da personagem, isso também distancia Bela ainda mais de seus conterrâneos que, assim, tornam-se pessoas incultas (com exceção de Bela e do morador que lhe empresta os livros, são praticamente todos analfabetos), pouco imaginativas e contrárias à educação e à independência feminina.

Já a tão comentada homossexualidade de Le Fou (Josh Gad), por sua vez, surge na maior parte do tempo como fonte de humor, mas perde esse caráter conforme o personagem torna-se mais crítico em relação a Gaston e, então, culmina em um momento interessante durante o baile mas que, de tão breve, é o exemplo perfeito de “piscou, perdeu”. Trata-se, definitivamente, de um passo pequeno rumo à representatividade, mas que pode abrir as portas da Disney para explorar o tema mais a fundo. Além disso, temos um morador da vila que, durante o ataque ao castelo, recebe roupas femininas e claramente descobre uma nova liberdade com esse visual. Significativa, também, é a profusão de casais inter-raciais no castelo e de pessoas de diferentes etnias ali e na vila.

Dando vida aos objetos encantados do castelo, temos um elenco homogeneamente talentoso e que captura com excelência a personalidade de seus personagens: Ewan McGregor é divertido e deliciosamente cheio de si como Lumière; Ian McKellen imprime covardia e hesitação a Cogsworth; e a já mencionada Emma Thompson traz calor e carisma à Sra. Potts. De volta ao elenco de carne e osso, Luke Evans diverte-se imensamente como Gaston, caricatura perfeita de um caçador burro, egocêntrico e insuportável que, em suas mãos, surge divertido (suas declarações saudosistas em relação à guerra são hilárias, mas também reveladoras).

Assim, A Bela e a Fera demonstra que, sim, a Disney quer — e vai — continuar ganhando rios de dinheiro com as adaptações live-action de seus clássicos da animação. Alguns funcionam muito bem, outros nem tanto, mas apenas as aventuras de Alice se demonstraram desastres. De qualquer forma, o subgênero não vai embora tão cedo. A nós espectadores, basta torcer para que, assim como A Bela e a Fera, os próximos títulos capturem a magia da história original de maneira própria e com suas devidas atualizações.


“Beauty and the Beast” (EUA, 2017), escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos, dirigido por Bill Condon, com Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Hattie Morahan, Ewan McGregor, Emma Thompson, Ian McKellen, Audra McDonald, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw, Nathan Mack e Ray Fearon.


Trailer – A Bela e a Fera

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