A Balada de Buster Scruggs | Um tratado sobre o velho oeste


Os irmãos Coen já tinham mergulhado nesse profundo e pessimista velho oeste comandando por uma figura “wayneana” em Bravura Indômita. O resultado foi um dos melhores filmes de suas carreiras. Alguns muitas anos depois, a mesma dupla volta ao assunto em A Balada de Buster Scruggs e o resultado, ainda que menos impressionante, mostra o quanto o repertório dos cineastas é extenso.

A Balada… é então um dos maiores tratados que o cinema já viu sobre esse gênero. Não como, por exemplo, Sérgio Leone fez ao relacionar o “fim do western” com a chegada dos trilhos, mas sim algo muito mais no campo do inconsciente coletivo. Os Coen passam a limpo todos arquétipos de mais de cem anos de histórias por meio de seis historietas.

Tudo que surge em A Balada… parece saído de uma alguma história do “velho oeste” que você já ouviu em algum lugar. Pistoleiros implacáveis, assaltantes charmosos, um show de horrores, uma caravana em busca de novas oportunidades, um minerador em busca da pepita definitiva e, é claro, uma viagem em uma diligência.

É lógico que tudo isso com a assinatura dos irmãos Coen, portanto, é só esperar, pois não faltará um tom de violência delicioso, personagens comicamente bizarros, momentos sensíveis, muitas surpresas e, é claro, um pontinho metafórico que vai deixar muita gente com a pulga atrás da orelha.

Mas sobre tudo isso, A Balada… é um filme sobre fracassos, ou melhor, sobre como o western sempre foi enxergado como uma fábrica pessimista de surpresas. Como se você sempre soubesse que tudo tem grandes chances de dar errado, mas mesmo assim não tira o olho do pistoleiro.

Falando em pistoleiro, A Balada… abre, justamente, com o episódio que dá nome ao filme. Nele, Tim Blake Nelson é Buster Scruggs, um pistoleiro impecável, tanto em suas canções, quanto na violência, na roupa branca e na mira de seu revolver. Scruggs é o “velho oeste” clássico, meio almofadinha entrando em um sallon onde todos parecem saídos do momento mais sujo de um “espaguete western”, mas é lógico, ninguém é suficiente para ele.

Scruggs só é parado por um pistoleiro todo de preto (assim como o Jack Palance em Os Brutos Também Amam). Essa sensação de que tudo sempre terá um fim atravancado pelo novo é o que move A Balada…. Nem sempre o “novo” se dá bem, mas a surpresa dele estar lá é recorrente em todas as histórias. Talvez, porque, em termos de período histórico, o final do século XIX nos Estados Unidos seja, justamente, isso: a chegada do novo e a luta do velho por se manter vivo.

Em outro momento, por exemplo, o personagem vivido por Liam Neeson, dono de um “show” onde um homem sem braços e pernas recita Shelley, diante da diminuição de suas plateias, decide por uma nova atração.

“Meal Ticket” talvez seja até o ponto fora da curva de A Balada…, já que abraça um pessimismo impressionantemente aterrador. Daqueles que te embrulham o estômago a cada momento que o episódio passa e você sente mais perto a chegada do inevitável. Um momento do filme que talvez exagere na sensação de desconforto. Olhar para os olhos da “atração” enquanto ele é virado para a parede no prostíbulo, é de cortar o coração.

Falando em “de cortar o coração”, “The Gal Who Got Rattled” tem a melhor sequência de tiroteio do filme, assim como o final mais tocante. Principalmente depois de apontar tudo para um romance bucólico e finalizar a experiência com um ataque indígena selvagem.

Já sobre os índios, haverá quem aponte ali uma falha dos Coen na hora de “estruturar” essas figuras tão importantes para o gênero. Uma crítica que deve passar pelo modo preguiçosamente estereotipado com que os nativos americanos sempre foram encarados e, aqui, continuam o sendo. É bom lembrar que em Bravura Indômita eles também não fizeram jus a suas genialidades quando trataram do mesmo assunto, o que não atrapalhava tanto andamento. O problema em A Balada… é relegar os índios a essa presença sem face e só movida pela raiva.

De qualquer jeito, os Coen talvez façam isso propositalmente, já que estão em busca do faroeste clássico e seus estereótipos. Falando neles, é delicioso ver Tom Waits encarnando o velho em busca da pepita de ouro em “Mother Mchree”. Principalmente ao acompanharmos sutilmente a natureza dando lugar a essas disputas sem sentido e se tornando uma observadora das barbaridades da civilização.

“Mother Mchree” começa com um córrego tão lindo que é difícil achar que ele exista (realmente não sei). Essa sensação de “bonito demais para ser real” é talvez uma das outras melhores características de A Balada…. O designer de produção Jess Gonchor, que acompanha os Coen em alguns de seus últimos filmes, é incrivelmente preciso e limpo, o que cria uma ambientação ao mesmo tempo real e tão cheia de personalidade que é difícil não relacionar com aquele western clássico de Hollywood, limpo demais, mas que marcou o gênero.

Quem completa o visual do filme é o diretor de fotografia Bruno Delbonell, famoso, justamente, por criar essa sensação peculiarmente exagerada em O Fabuloso Destino de Amelie Poulin. O que casa perfeitamente com esse modo único dos Coen enxergarem o cinema.

E A Balada de Buster Scruggs pode ser sobre faroeste, mas é mais ainda sobre cinema. Sobre esses personagens e situações que criaram em nossas mentes esses mundo sem leis, mas com pistoleiros implacáveis e pepitas de ouro que podem mudar nossas vidas e, é claro, um hotel no meio de lugar nenhum que, na verdade, pode ser a entrada para o inferno. Tudo bem, essa última parte é “coisas dos Coen”, mas acreditem, combina certinho com o mundo que eles constroem e com o tratado que eles se predispõem a conceber, tanto narrativo, quanto esteticamente falando.
Histórias que já foram contadas diversas vezes, mas nunca desse jeito único e incrível.


“The Ballad of Buster Scruggs” (EUA, 2018), escrito e dirigido por Joel e Ethan Coen, com Tim Blacke Nelson, Clancy Brown, James Franco, Ralph Ineson, Liam Neeson, Harry Melling, Tom Waits, Bill Heck, Zoe Kazan, Grainger Hines, Brendan Gleeson, Jonjo O´Neill, Cheilcie Ross, Saul Rubinek e Tyne Daly


Trailer – A Balada de Buster Scruggs

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