Muito provavelmente Stephen King seja o autor com mais adaptações para o cinema. E isso desde clássicos populares como O Iluminado (Stanley Kubrick), Carrie (Brian de Palma) e Um Sonho de Liberdade (Frank Darabont), até cults meio “bezões” como Christine (John Carpenter). Mas no meio disso tudo há um número infindável de produções esquecíveis, e Conexão Mortal estará para sempre perdido nesse meio.

Para começo de conversa, ainda que você vá encontrar esse filme na Netflix com esse título, também talvez dê de cara por ai com ele respondendo pela alcunha de Celular (que é a mesma do livro lançado no Brasil em 2006). Mas isso não importa muito, já que qualquer título que você veja, vai acabar se decepcionando.

Curiosamente, uma decepção em meio a uma ideia interessante, que parte de uma premissa mais legal ainda e vem até com um frescor dentro do gênero, mas ainda assim o resultado é frustrante. Um filme pequeno e sem ambição, que escorrega tropeça, cai pelos cantos e só não é um desperdício total, pois traz essa novidade.

O novo vem com a ideia de King de criar essa história de zumbis que na verdade são humanos transformados em maníacos homicidas depois de uma misteriosa chamada em seus celulares. Em meio a esse caos, Clay Ridell (John Cusack) é um escritor de HQs que consegue sobreviver a esse surto e ganha a companhia de um maquinista de metrô, Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e sua jovem vizinha, Alice (Isabelle Fuhrman). Juntos, os três vão então em busca do filho de Clay.

Porém, o que poderia ser o mais legal do filme (que é o mais legal do livro) é a construção desses “zumbis” e o modo como outro personagem vilanesco aos poucos vai surgindo. Mas nada disso empolga, principalmente quando se falar no tal “cara de capuz vermelho”, que simplesmente aparece pouco demais e não empolga.

E essa falta de empolgação passa por um roteiro (escrito pelo próprio King em parceria com Adam Alleca) que simplesmente caminha pelas estradas enquanto um punhado de diálogos expositivos repetem as informações e podem até rumar para algumas soluções criativas, mas nunca conseguindo valorizá-las.

Em certo momento, uma reviravolta “dá um poder” aos zumbis, isso para alguns segundos depois os personagens chegarem à mesma conclusão em voz alta. Assim como em uma sequência interessante envolvendo um incêndio, a resolução é quase uma piada de situação que conversa com o mais puro azar de um dos personagens. E tudo isso não permite que Conexão Mortal, ou Celular, mantenha o clima de suspense e urgência que ele poderia ter se conseguisse levar consigo um pouco mais de ritmo e soluções mais inteligentes.

Um erro semelhante ainda coloca o personagem Samuel L. Jackson em uma redoma de acessibilidade. Não existe nenhuma possibilidade do espectador se interessar ou torcer por ele. Em certos momentos, parece até não estar confiando em ninguém, já no outro, com um revolver em cada mão é tão “fodão” que só falta gritar “motherfunking zombies on this motherfucking movie!”. Sem esquecer no desespero que ele parece ter diante da morte de um personagem que você nem ao menos achava que eles tinham uma relação.

Essa falta de interesse se estende para o protagonista vivido por Cusack. É lógico que você entende a motivação dele, mas a única coisa que você verá ali é isso, o resto… bom, não tem resto, nem sentimento, nem amor, nem preocupação ou perigo. Pior ainda, indo em direção a um final bobinho. Pensando bem, mais até que bobinho, dá até uma certa vergonha, que só não é maior, pois a escuridão desse momento não te deixa ver muito mais coisas.

E coloque isso na conta do diretor Ted Williams, que não faz absolutamente nada de interessante no filme inteiro, nem quando o assunto é gore, nem suspense ou terror. Isso fica pior ainda com um trabalho pobre e preguiçoso dos efeitos especiais. A fumaça sobre a cidade parece sair do computador pessoal de algum artista digital, assim como a maquiagem dos “zumbis” (ou o que quer eles possam ser para você) parecem simplesmente não existir.

Mas sobre tudo isso, uma pena por uma história tão interessante e que busca renovar uma série de conceitos tão engessados, simplesmente não conseguir fazer o que deve ser feito. Uma pena já que você irá esquecer desse filme tão logo ele acabe e você talvez pule para outra adaptação de alguma obra de King, uma dentre aquelas tantas que você também irá esquecer.


Cell” (EUA, 2017), escrito por Adam Alleca e Stephen King, à partir da obra de Stephen King, dirigido por Tod Williams, com John Cusack, Samuel L. Jackson, Isabelle Fuhrman, Owen Teagu e Stacy Keach.


Trailer – Celular

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