3 Bellezas (2014) conta a história de Perla, uma mãe solteira com 3 filhos que – ex-vencedora de um concurso de beleza – tem como única missão na vida ver sua filha Carolina realizar o sonho que ela 3 Belezasmesma nunca conseguiu, o de se tornar Miss Venezuela. A obsessão da mãe, no entanto, tem profundo impacto negativo na vida dos filhos; tanto na da própria Carolina, que se vê pressionada a alcançar os objetivos que são mais da mãe do que dela própria, quanto na dos irmãos, que são tratados como verdadeiros coadjuvantes na história da irmã e, não surpreendentemente, desenvolvem uma grande carência afetiva.

Além da ótima premissa, o filme do diretor venezuelano Carlos Caridad-Montero não perde a oportunidade de criticar pesadamente a cultura da busca pela perfeição física e dos concursos de beleza que tomam aquele país sul-americano. O filme ainda tem espaço para fazer um comentário acerca dos pastores brasileiros que, aparentemente, não têm-se espalhado apenas em nosso território, o que não deixa de ser extremamente curioso para nós espectadores brasileiros.

Entretanto, é exatamente ao tentar abordar e alcançar diferentes temas, assuntos e – até – gêneros que o longa acaba se perdendo completamente. Contando com uma premissa com alto potencial dramático, 3 Bellezas entrega diversos momentos marcantes, a começar pela cena que abre a película, mostrando os três filhos de Perla a brincar de forma descontraída na piscina de plástico no jardim de casa, mas que, logo ao adentrar a casa, imediatamente se transformam quando vemos as duas meninas calçando seus saltos altos – em um close fechado que destaca o quão importante aquele momento é – para, em seguida, recomeçarem seus treinamentos diários de como se comportar em uma passarela.

Infelizmente, a triste história tem sua força diluída pela esquizofrenia de gêneros da qual o longa padece. Flertando com o humor negro (em suas muitas cenas gráficas), o terror e a comédia (em todas as cenas na oficina mecânica), entre outros, o filme de Caridad-Montero constantemente perde o foco e nunca consegue verdadeiramente abraçar nenhum dos estilos pretendidos, fazendo com que o efeito desejado em cada cena em particular não seja totalmente alcançado devido ao fato de não funcionar como um todo.

O tom novelesco adotado em inúmeras passagens – com destaque para o concurso de beleza no 3o ato e os constantes planos fechadíssimos – soma-se à doença esquizofrênica e também não agrega nada à construção da trama ou dos personagens. Mas o maior problema mesmo talvez seja a completamente deslocada trilha sonora feita por Alvaro Paiva Bimbo, que, desde o prólogo, dá ao filme um tom mais leve e brincalhão do que aquilo que presenciamos na tela, funcionando como um desserviço no trabalho de envolver o espectador com a história que está sendo contada.

Algo demasiadamente triste, já que o cerne do roteiro escrito pelo próprio Caridad-Montero não carece de ótimas passagens, como a excelente rima visual feita entre Perla costurando um vestido para um de suas filhas, enquanto a mesma é “costurada” por cirurgiões plásticos em uma mesa de operação. O longa conta ainda com ótimas atuações de todo o elenco principal – com destaque para os atores mirins que fazem as versões jovens de Carolina, Estefania e Salvador – deixando claro que, em melhores mãos, poderiam realmente dar vida a personagens inesquecíveis.

Em suma, 3 Bellezas é um filme bastante interessante com enorme potencial, mas que acaba se perdendo devido a sua ânsia por fazer demais. Ainda assim, o longa não deixa de ser divertido e é, sem dúvida, particularmente fascinante para o espectador tupiniquim.


3 Bellezas  (2013), escrito por Carlos Caridad-Montero, dirigido por Carlos Caridad-Montero, com Diana Peñalver Denis, Fabiola Arace, Josette Vidal Restifo, Fabián Moreno, Valentina Gil, Camila Coehlo e Miguel Angel Pacheco.


Trailer 3 Belezas

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